Crônica & Crônicas    

 

 

Assim Nascem Os Grandes Mestres - Parte I

 

     Em 1982 eu vi nascer uma estrela do xadrez sul americano: Julio Granda Zuniga. Inclusive uma grata recordação para sempre: joguei uma partida relâmpago contra ele que contava com 13 anos e já era campeão peruano, porém, embora todos soubessem que ele seria um Grande Mestre no Futuro naquele momento não tinha o título ainda. Eu estava acompanhando como descreverei mais adiante a rodada do dia na ante-sala do Torneio e o garoto Zuniga, após jogar sua partida, apareceu cercado de dois acompanhantes já adultos que ou eram irmãos ou seguranças, porém com certeza aquele tipo físico e facial típico dos peruanos de origem mestiça indio/colono. Joguei com empenho, a oportunidade era única. Ele de brancas e eu de negras, naquela época eu já jogava bastante rápido o ping de 5 minutos de modos que a medida que a partida ia andando, ele ia sempre ficando melhor na posição e criando lances de ataque todo tempo, bem no seu estilo e eu para compensar, jogando o mais sólido e rápido possível, até que caiu a seta dele. Fiquei mais impressionado foi com a reação dele: bateu forte na mesa com a mão cerrada falando num dialeto difícil de entender, lógico estava xingando. Achei que iria pedir para jogar outra, porém, estava com tanta raiva que foi seguro pelos acompanhantes que pareciam querer demove-lo de jogar e sair dali e assim foi. Não tive outra chance de jogar com ele, porém, ele não deve se lembrar de mim, mas eu lembro dele, lógico... Vejamos como se passou o acontecimento: no final de 1981, dezembro para ser exato, algo que não se vê mais hoje em dia, surgiu um anúncio de meia página no jornal o Globo que dizia o seguinte: "UMA ABERTURA EM GRANDE ESTILO - Torneio Internacional Peão de Ouro" - "Dois Campeões Mundiais, um Mestre Internacional de apenas 14 anos, campeões de 11 países e a Seleção de Ouro - formada por cinco campeões brasileiros de até 17 anos - essa turma de jovens craques do xadrez disputará, de 1 a 20 de janeiro de 1982, no Rio Othon, o Torneio Internacional Peão de Ouro. A equipe brasileira está em Vassouras (RJ), sendo cuidadosamente preparada para este torneio e várias outras competições internacionais programadas para 1982. A exemplo do que aconteceu neste ano, com os "Matches Nacionais da Amizade", a atuação conjunta da IBM do Brasil e Fundação Roberto Marinho vai incrementar a temporada de xadrez." - assim colocado e no meio no anuncio uma foto do trofeu onde se lia gravado: The Gold Pawn of Brasil, ao lado esquerdo o logotipo da IBM do Brasil Ltda e do lado direito o logotipo da Fundação Roberto Marinho. Bom, todos ficamos sabendo e logicamente interessados no acontecimento, porém muito mais surpresas viriam com o tempo. Compareci a primeira rodada e a muitas outras ou quase todas, sendo que havia o detalhe: Moro a 90 quilômetros do local do jogo, porém naquela época tinha que estar no Rio a trabalho mesmo e assim foi. O Hotel Rio Othon é junto ao Copacabana Palace, sabia que o local deveria ser confortável e bem ajeitado, porém qual não foi a minha surpresa ao constatar a organização impecável do evento: a) Uma sala para quem quisesse acompanhar com camêras colocadas diretamente acima da cabeça e tabuleiros em cada partida dos 8 tabuleiros com 16 participantes! b) Um boletim que saía do forno como padaria: minutos depois de cada rodada e com comentários! Isso é impensável nos dias de hoje, em termos de Brasil, porém, acho que até para aquela época já era impressionante. Pois bem, quem eram os participantes e os comentaristas? Para não deixar de lembrar, possuo todos os boletins e todas as partidas comigo aqui, devidamente já registradas em formato pgn e base de dados no chessbase. Um detalhe ainda me vem a lembrança: nosso companheiro Renan Levy lá estava também e talvez possa colaborar com mais informações. Faziam os comentários os seguintes jogadores: Rubens Filguth (MI), Herman Claudius Van Riemsdijk (MI), Luiz Loureiro (MF), Darcy Gustavo Lima (hoje GMI naquela época, se não me engano tinha já norma de MI). Para o jornal o Globo comentava o duas vezes campeão brasileiro José Thiago Mangini. Os participantes: Os dois campeões mundiais ao qual se referia o anúncio eram Ian Wells (Inglaterra) que conseguiria terminar o torneio e iria sofrer triste acidente na praia ao final do evento, tendo ficado internado no hospital alguns dias e falecido para consternação da gente, isso dias depois de findo o Torneio, detalhe: não sei o quanto isso possa ter influenciado a promessa que constava no anúncio: "várias outras competições internacionais, programadas para 1982" o outro era provavelmente o jogador dos Emirados Árabes Saeed Ahmed Saeed, um garoto que já era então Mestre Internacional. Outros destaques: - o jovem Julio Granda Zuniga, considerado um gênio, uma vez que nunca tinha estudado xadrez e jogava as aberturas de modo criativo, nada que constasse em livros, os quais ele não tinha. - Maxim Dlugy era uma outra revelação muito forte vindo dos Estados Unidos - Karl Thorsteins vindo da Islandia, país com tradição no xadrez haviam patrocinado o match de Spassky x Fischer em 1972 - Horst Lutz da Alemanha Ocidental muito forte jogador depois MI - Srdjan Zakic da Iugoslávia - Alex Kuznevoc do Canadá - Abraham Bettsak do Panamá (este seria uma surpresa inversa) - Thomas Darcyl da Argentina. Os Brasileiros, lembro-me que pelo menos dois se tornaram Mestres Internacionais: Sando Heleno Trindade de Brasília e Ivan de Souza, naquela época não eram MIs, Aron Correa, tenho que verificar se tem o título de MI, Carlos Paterson, Milton Braitt e Gueber Carvalho fechavam a "Equipe de Ouro do Brasil" que havia treinado dias em Vassouras para o Torneio. Todos estes eram "apenas garotos" porém, estamos iniciando a narrativa de como estes "garotos" se enfrentaram no mais forte Torneio já realizado para a idade deles, como foram as partidas, como tudo se passou e qual foi o destino deles, já passados 22 anos daquele histórico evento e quase esquecido nos dias de hoje..."


Continua...


Clube de Xadrez Virtual 01 de novembro de 2004.

por Pedro Alcântara