Crônica & Crônicas    

 

 

Assim Nascem Os Grandes Mestres - Parte II

 Os Jornais

 

Antes que possamos acompanhar as brilhantes partidas que foram disputadas no I Torneio Peão de Ouro do Brasil, vejamos alguns artigos aqui reproduzidos dos jornais da época, fato que nos irá familiarizar com o "clima" que reinou entre os enxadristas da época ao acompanhar o inédito torneio, se bem que verdade seja dita, lidos hoje em dia percebe-se um distante conhecimento de como se passam as coisas no xadrez o que torna tais artigos mais interessantes ainda, com o jogo tratado por pessoas pouco familiarizadas com ele: um detalhe a mencionar é que os comentaristas dos boletins escolhiam a melhor partida de cada rodada, o que reproduziremos aqui.

O Globo noticiou em 14/01/1982: "Sandro derrota Zuniga e é vice-líder do Peão de Ouro" - O brasileiro Sandro Heleno Trindade derrotou ontem o campeão mundial infantil de 1980, o peruano Júlio Granda Zuniga, e ocupa agora a vice-liderança do Torneio Internacional de Xadrez Peão de Ouro, que está sendo promovido pela Fundação Roberto Marinho e IBM do Brasil no Hotel Othon, com entrada franca. Zuniga, que estava na liderança do torneio, caiu para a quinta colocação, ao lado do brasileiro Aron Correia. Os líderes, após a disputa da nona rodada, são Ian Wells, da Inglaterra, que derrotou ontem o Grande Mestre Saeed Ahmed Saeed, dos Emirados Árabes, Maxim Dlugy, dos EUA e Karl Thorsteins da Islândia; O Dia em 13/01/1982: O brasileiro Sandro Trindade obteve ontem uma boa vitória sobre o ex-campeão mundial Júlio Zuniga do Peru, na nona rodada do Torneio Internacional de Xadrez Peão de Ouro, que se disputa no Hotel Othon. Trindade, agora está em quarto lugar na competição, com 6,5 pontos. O Globo em 15/01/1982 - "Thorsteins reage, empata e é líder do Peão de Ouro - A enorme capacidade de concentração demonstrada desde o primeiro dia do torneio, levou, ontem, o islandês Karl Thorsteins a recuperar-se e empatar com o alemão Richard Lutz. Com isto, ele manteve a liderança do torneio Peão de Ouro, com 9,5 pontos, a apenas 3 rodadas do encerramento da competição. Thorsteins, de 16 anos, esteve em desvantagem desde o começo da partida com Lutz, iniciada às 8 horas, no Hotel Othon. As 13 horas, esgotado o prazo regulamentar de 300 minutos e não conhecido o vencedor, o jogo foi suspenso com um lance secreto de Lutz. Atento a todos os movimentos, o mestre internacional Herman Claudius foi taxativo: "Lutz, caso tenha feito o lance correto, dificilmente deixará de vencer". Thorsteins não acreditou e voltando no final da tarde ao tabuleiro, reverteu as expectativas, levando a partida ao empate. Este resultado, no entanto, prejudicou o brasileiro Sandro Trindade, que também está com 9,5 pontos, nas 13 partidas jogadas - mais uma do que Thorsteins - mas disputa com ele a liderança. Sandro enfrentará amanhã - hoje é dia de folga - o inglês Ian Wells. Ao brasileiro resta vencer as duas últimas partidas - joga ainda com o alemão Richard Lutz - e torcer para um tropeço de Thorsteins contra Carlos Paterson (Brasil), Saeed Ahmed (Emirados Árabes) ou Tomas Darcyl (Argentina). O Peão de Ouro, que terá 15 rodadas, é uma competição promovida pela Fundação Roberto Marinho e IBM do Brasil. Hoje todos os jovens enxadristas conhecerão o Maracaña. Ainda no mesmo artigo a entrevista com Sandro Heleno: SANDRO TRINDADE: Se for eu o ganhador, será uma zebra - Todo mundo precisa de uma profissão. A minha será a de engenheiro eletrônico ou a de analista de computação. O xadrez, até eu me formar, ficará em segundo plano. Depois eu não sei. A indecisão quanto ao xadrez é de Sandro Heleno Trindade, o brasileiro que reúne as maiores possibilidades de ficar com o título de Peão de Ouro, e que ocupa atualmente a segunda colocação na classificação geral do Torneio. - Se eu ganhar será uma autêntica zebra. Não acredito realmente que seja eu o vencedor. E, ainda mais modesto, ele diz jamais ter acreditado que Jaime Sunyê, o preparador da delegação brasileira, o tivesse apontado como um dos favoritos: "Ele não pode ter dito isto, não fui bem no treinamento de Vassouras, onde estivemos concentrados". Bem mesmo ele esteve no campeonato pan-americano de 1980, quando conquistou o título. E, melhor ainda, na estréia em competições internacionais, vencendo o World Open da Filadélfia, em 1977, na categoria Unrated. Mineiro de Belo Horizonte, Sandro começou a jogar xadrez quando mudou-se aos 10 anos para Brasília. Hoje, aos 16, ele é o campeão do Jebs e recorda-se, com carinho, de ter enfrentado o seu ídolo, o soviético Boris Spassky. - Foi quando eu tinha 13 anos e ele fez uma simultânea em Brasília. Fiquei seu fã pela forma com que jogava e, também por sua simpatia. Algo que não viu em Viktor Korchnoi, que também fez uma demonstração em Brasília. Por isto, confessa, não pôde deixar de torcer por Karpov, no último confronto entre os dois enxadristas pelo título mundial. - Mas não foi só por isto. Karpov está num nível muito acima dos demais jogadores e mereceu o bicampeonato. Mas Sandro gosta realmente é de Jaime Suniê, que ensinou-lhe táticas preciosas, as quais transmitirá ao irmão quando voltar a Brasília: o pequeno Romel, de 10 anos, único na casa que também se interessou pelo xadrez.



Clube de Xadrez Virtual 08 de novembro de 2004.

por Pedro Alcântara