Misérias e Glórias do Xadrez - 1

Carlos Batista Lopes

O que há de mais reacionário dentro e fora da Rússia parece decidido a usar Garry Kasparov como testa-de-ferro - ou, pelo menos, a mantê-lo como opção - nas próximas eleições presidenciais daquele país. O xadrez é um esporte nacional russo, quase como o futebol entre nós. Logo, um ex-campeão mundial desse esporte seria, realmente, um candidato a considerar contra o presidente Putin - ou o candidato que este vier a apoiar. Mais ainda porque Kasparov não é aquilo que antigamente se chamava um “inocente útil”. Pelo contrário. De inocente, Kasparov nada tem. Mas não há dúvida de quem tem sido de uma utilidade ímpar para “oligarcas” russos e monopólios imperialistas.

Há poucos dias, ele, que há alguns anos obteve também a nacionalidade norte-americana, foi escolhido candidato a presidente pela coalizão “A Outra Rússia” - que reúne uma cafua de partidos direitistas, inclusive o “Nacional-bolchevique”, um partido fascista que tem tanto a ver com os bolcheviques quanto o partido Nacional-socialista de Hitler tinha a ver com o socialismo. Seguiu-se o apoio de uma mal chamada “frente cívica”, e fala-se, inclusive, que poderá ser o candidato único dos que se opõem ao atual governo russo.

Não é de agora que Kasparov tem dedicado ao presidente Putin alguns epítetos do tipo “ditador” e “tirano”, mas não por deficiências e problemas que o governo de Putin tenha – e certamente tem. O motivo do ódio de Kasparov é a tentativa do presidente russo de combater ou, pelo menos, limitar, o poder político e econômico de alguns nababos que assaltaram o imenso patrimônio construído durante o socialismo na URSS. O mais conhecido desses mafiosos é Bóris Berezovsky, hoje foragido na Inglaterra – e com prisão decretada em vários países, entre os quais, o Brasil. É por causa da repressão a esse tipo de delinqüente que Kasparov diz que “não há democracia na Rússia”. A propósito, Kasparov tem uma crítica a Berezovsky: a de que este não faz tudo o que pode contra o presidente Putin.

Trata-se de um democrata muito peculiar. Na última vez em que esteve no Brasil, Kasparov declarou à revista “Época” que “a maior figura da história russa foi o almirante Kolchak”. Este hoje esquecido canalha era um genocida que aterrorizou a parte asiática da Rússia durante a Guerra Civil (1918-1922), na tentativa de coroar-se a si mesmo czar de todas as Rússias. A sofreguidão sanguinária de Kolchak e de seus oficiais czaristas era tal que provocou revolta até mesmo nas tropas estrangeiras que interviram na Rússia a seu favor, na tentativa de esmagar a recém realizada revolução. Por exemplo, em suas memórias daquele período, o general norte-americano William S. Graves, comandante da força de intervenção que o governo dos EUA enviou à Sibéria para apoiar as hordas de Kolchak, relata que elas “devastavam o país como animais selvagens, matando e roubando. Quando se objetava contra esses assassinatos brutais, respondiam que os assassinados era bolcheviques, e essa explicação parecia satisfazer todo mundo”. Graves também relata os levantes do povo contra esses criminosos e a sua própria reação quando foi solicitado a reprimir a população, que queria executar um dos carniceiros de Kolchak, um certo Ivanov-Rinov: “no que me diz respeito”, disse o general a Charles Eliot, enviado inglês junto a Kolchak, “o povo pode trazer Ivanov-Rinov para a frente do meu quartel-general e pendurá-lo naquele poste” (cf. Graves, W. S., “America's Siberian Adventure: 1918-1920”).
Esses são os heróis de Kasparov – e uma amostra da democracia da qual é adepto. A propósito, há apenas duas semanas, ele declarou que é mais difícil vencer Putin do que foi vencer em xadrez porque agora “meu oponente pode mudar as regras quando quiser”.

O interessante nessa declaração é que toda a carreira de Kasparov em xadrez foi feita sob a égide da mudança de regras. Certamente, ele não conseguiu, ou não foi necessário, mudar as regras do jogo. Em vez disso, foram as regras das disputas que foram mudadas, para que ele ascendesse e se mantivesse no topo do xadrez mundial.

Já veremos como foi a ascensão de Kasparov. Por agora é suficiente recordar que a primeira vez em que a maioria dos enxadristas fora da URSS ouviu falar de Kasparov foi quando Arrabal, o mesmo do “teatro do absurdo”, que mantinha uma coluna sobre xadrez no “L'Express”, abriu uma campanha para defender um jovem e talentoso jogador judeu que, devido ao anti-semitismo dos comunistas, tinha sido obrigado a mudar o próprio nome para continuar a participar de torneios.

Hoje é público que Kasparov apagou o sobrenome judeu do pai – Weinstein - por exigência da mãe, Clara, após a separação. No entanto, ele chegou a participar de torneios usando o sobrenome paterno, sem que houvesse problema algum. Não fosse a URSS um país onde alguns dos principais jogadores de xadrez tinham sobrenomes como Bronstein, Moseievich, Rabinovich, Averbakh - e a lista de jogadores de origem judaica que jamais foram importunados por causa de seu nome é quase infinita.

No entanto, o espantoso é que ninguém se lembrasse disso na época em que Arrabal – o mesmo que queixou-se de que, sob o fascismo, na Espanha somente se dava atenção aos escritores que eram contra Franco – começou a sua campanha, e que mesmo enxadristas politicamente à esquerda tenham engolido essa idotice e ficado intimidados por ela.

Porém, a luta política, ideológica, propagandística, no xadrez não havia começado com Kasparov e a campanha de Arrabal. Por isso é necessário que recuemos um pouco no tempo para abordá-la.

O INÍCIO

Em 1946, o então campeão mundial de xadrez, Alexander Alekhine, um russo “branco” (isto é, contra-revolucionário) naturalizado francês, consumia-se, com a ajuda de litros de bebida, num quarto de hotel no Estoril, em Portugal. Sob a proteção da ditadura salazarista, ele conseguira fugir à Justiça francesa, que desejava julgá-lo por sua colaboração com os nazistas durante a II Guerra Mundial.

Naquela época era o próprio campeão quem decidia qual o desafiante que deveria enfrentar. A regra havia sido estabelecida em 1866 pelo primeiro campeão mundial, o austríaco Wilhelm Steinitz, que mantivera o título por 28 anos. Porém, Steinitz - o primeiro teórico a estabelecer leis científicas para o xadrez - tinha tal predominância em sua época que essa regra não tornava ilegítimo o título: era consenso que o campeão era o maior jogador do mundo, e que venceria qualquer oponente, fato confirmado pelos matches que disputou pelo título – contra Zukertort (EUA, 1886), Tchigorin (Havana, 1889), Gunsberg (NY, 1890) e, outra vez, Tchigorin (Havana, 1892).

Em 1894, finalmente, Steinitz, com quase 60 anos, perdeu o título num match contra um jovem de 28 anos, Emanuel Lasker. Nas duas décadas seguintes, talvez nenhum outro jogador em toda a história do xadrez tenha evidenciado uma superioridade tal sobre seus contemporâneos, quanto Lasker. O que fez com que a regra que dava ao campeão o direito de escolher o desafiante permanecesse intocada. Lasker, um matemático alemão (deve-se a ele a versão original do “teorema de Lasker-Noether”, da álgebra comutativa), introdutor da abordagem psicológica em xadrez, manteve-se campeão durante 27 anos, derrotando em matches alguns dos maiores jogadores da época: o próprio Steinitz, num match-revanche (Moscou, 1896), o norte-americano Frank Marshall (EUA, 1907), o alemão Tarrasch (Alemanha, 1908), o polonês Janowski (Paris, 1909), o austríaco Schlechter (Berlim, 1910) e novamente Janowski (Berlim, 1910).

Porém, já naquela época, alguns críticos observaram que o campeão não havia enfrentado Akiba Rubinstein, um jogador polonês que colecionara uma série espetacular de vitórias a partir de 1907. Rubinstein, judeu como Lasker, mas originário de um gueto miserável na Polônia, não havia reunido dinheiro ou patrocínio suficiente para a bolsa exigida pelo campeão.

Não é inteiramente verdade que Lasker houvesse evitado Rubinstein. O match entre eles foi marcado para outubro de 1914, mas a I Guerra Mundial impediu sua realização. Porém, também é verdade que Rubinstein, depois de 1912, havia declinado como jogador, iniciando uma processo que o levaria à esquizofrenia e ao internamento em um hospital psiquiátrico no ano de 1932 - de onde somente saiu quando os nazistas o enviaram a Auschwitz, mas ao qual voltou após a II Guerra, para morrer, ainda internado, em 1961.
O fato é que, depois da I Guerra, outra estrela começou a brilhar intensamente.

CAPABLANCA

José Raul Capablanca, o jogador cubano que em 1921 derrotou Lasker, foi o maior jogador da história do xadrez. Até mesmo Bobby Fischer, que jamais pecou pela modéstia, declarou que “Capablanca foi provavelmente o melhor jogador que já houve”. De todas as partidas que jogou oficialmente (601), Capablanca perdeu apenas 34, ou seja, 5,6%. Durante oito anos (1916-1924), ele esteve sem derrota, sequer em uma partida. E, nos 10 anos que vão de 1914 até 1924, Capablanca perdeu apenas três partidas (contra Tarrasch, em 1914, contra Chajes, em 1915, e contra Reti, em 1924).

Estranhamente - como observou o grande jogador norte-americano Reuben Fine, que conheceu Capablanca na década de 30 - o xadrez nunca foi o principal interesse do cubano. Fiel às suas origens, antes do xadrez, diz Fine, vinham outros três interesses: “vinho, mulheres e canções”, não necessariamente nesta ordem. Ele foi incensado em Hollywood como exemplo do “latin lover”, e eleito um dos 10 homens mais elegantes do mundo pela mídia dos EUA, porém, não foram apenas os norte-americanos que o celebraram. Em 1925, quando participou do Torneio Internacional de Moscou, cidade de que sempre gostou muito, Capablanca foi o astro de um curta-metragem de Pudovkin, “A Febre do Xadrez”, filme em que o diretor de “A Mãe” revela-se também um às da comédia.

Capablanca nunca jogou xadrez profissionalmente, até que sua demissão do serviço diplomático de Cuba, por uma das ditaduras que Washington instalou na Ilha, o obrigou. Ao falecer, em 1942, alguns amigos que levaram seus pêsames à viúva tiveram a surpresa de constatar que o grande jogador nem mesmo possuía em casa um tabuleiro de xadrez.

No entanto, nenhum campeão de xadrez foi tão popular – nem mesmo Bobby Fischer, apesar da mídia que o promoveu durante anos, até voltar-se contra ele. Quanto aos enxadristas, os cognomes dados ao cubano - “o xadrez” e “a máquina” - demonstram a admiração que ele provocava.

Capablanca havia iniciado sua trajetória aos 13 anos, em 1901, com sua vitória, num match amistoso, sobre o então campeão cubano, Juan Corzo y Príncipe. Em 1909, o campeão norte-americano Frank Marshall, que dois anos antes enfrentara Lasker pelo título mundial, ouviu falar de um jovem cubano que estudava engenharia na Universidade de Columbia, um enxadrista amador que fazia sensação com suas vitórias. Foi acertado um match entre ambos. Para surpresa geral, Marshall foi derrotado, e por um placar que não poderia deixar margem a dúvidas: Capablanca venceu o match de 23 partidas com 8 vitórias, 14 empates e apenas uma derrota.

Marshall, que naquele mesmo ano começara seu reinado no campeonato dos EUA (foi campeão norte-americano 26 vezes consecutivas, até renunciar ao título, em 1935) ficou abismado. Dois anos depois, convenceu o cubano a se inscrever no Torneio de San Sebastián, que reuniu, em 1911, todos os jogadores mais importantes do mundo, com exceção apenas do campeão mundial, Emanuel Lasker. Mas a inscrição de Capablanca provocou uma tempestade entre os participantes. Alguns deles protestaram pela inclusão de um desconhecido entre a nata do xadrez mundial, sobretudo o ucraniano Ossip Bernstein e o letão Aaron Nimzowitsch – este, o teórico da escola “hipermoderna”, que estava, então, contestando os princípios clássicos do xadrez, sobretudo a ocupação do centro com peões, preconizada por Steinitz e seu sucessor em teoria, Siegbert Tarrasch.

Bernstein e Nimzowitsch argumentavam com a diferença de categoria entre Capablanca e os demais. Porém, graças ao apoio de Marshall, a inscrição do cubano foi aceita. Na primeira partida, coube a ele enfrentar, justamente, Ossip Bernstein. Venceu-o inapelavelmente, assim como, depois, a Nimzowitsch. Ao final, Capablanca triunfou em seu primero torneio internacional com o quase incrível – para qualquer jogador, mas sobretudo para um iniciante - score de 6 vitórias, 7 empates e apenas 1 derrota.

Porém, Lasker ainda era o maior jogador do mundo, o que foi confirmado em 1914, no Torneio de St. Petersburgo, contra o próprio Capablanca. No primeiro confronto entre ambos, o cubano perdeu na final, quando lhe bastava um empate para conseguir o primeiro lugar. Esse torneio é famoso também por outra razão: em St. Petersburgo foi instituído o título de “Grande Mestre” (GM) para os principais jogadores de xadrez do mundo. A origem do título não é das melhores: foi distribuído pelo czar Nicolau II aos cinco primeiros colocados no torneio – Lasker, Capablanca, Alekhine, Tarrasch e Marshall. Mas seria adotado depois pela Federação soviética e pela FIDE (sigla de Fédération Internationale des Échecs – a entidade internacional do xadrez, fundada em 1924, que será parte decisiva da história que estamos contando).

Após a I Guerra Mundial, era indiscutível a primazia de Capablanca no xadrez mundial. Até mesmo se formulara, entre os enxadristas, o “problema Capablanca”. Tal problema resumia-se no seguinte: como obter uma linha de jogo que derrotasse o cubano? Foi o primeiro oponente de Capablanca, Frank Marshall, que levou mais à frente a tentativa de resolver esse “problema”. Inventou, para isso, o famoso “gambito Marshall” (os enxadristas também o chamam de “variante Marshall da abertura Ruy López” ou “variante Marshall da abertura espanhola”, mas evitamos esses e outros termos porque este artigo não é dedicado somente aos aficcionados do jogo). No entanto, quando, em 1918, no Torneio de Nova Iorque, Marshall, outra vez enfrentando Capablanca, usou a linha que havia laboriosamente preparado durante vários anos, o cubano demorou pouco tempo para encontrar, no 16º lance, a única jogada que o salvava da cilada – e ganhou mais uma partida contra Marshall. [O leitor que se interessar pelo assunto poderá encontrar, na Internet, várias análises desta partida; recomendamos a do professor costarriquenho Mário Valverde López – porém, há outras igualmente excelentes.]

Em 1921, quando Lasker enfrentou Capablanca pelo título mundial, havia poucas dúvidas sobre qual seria o resultado. O próprio campeão havia previsto a vitória de Capablanca (um ano antes, havia escrito ao desafiante: “você ganhou este título não através de um desafio formal, mas através das suas brilhantes capacidades”). Conhecendo a trajetória de Lasker, antes e depois desse match, certamente não o fez por intimidação.

Capablanca venceu com 4 vitórias, 10 empates e nenhuma derrota. Foi o único match pelo título mundial onde um dos contendores não perdeu uma única partida. Tal fato somente se repetiria em 2.000, quando Vladimir Kramnik venceu Kasparov, mas este não era um match pelo título oficial, como veremos.

Consagrado pela vitória, um dos problemas que se colocou Capablanca foi, precisamente, o da seleção de seu próximo desafiante. Para ele, a regra segundo a qual o campeão escolhia seu oponente havia chegado ao limite. Mas isso é o que veremos na próxima edição.

Carlos Batista Lopes