Misérias e Glórias do Xadrez - 11
Carlos Batista Lopes

Nosso relato da trama que permitiu a Fischer enfrentar Spassky não tem, evidentemente, o objetivo de negar que ele fosse - e, provavelmente, ainda seja - um grande enxadrista, dos maiores que já existiram. Porém, as regras têm de valer até para os melhores – mesmo para o melhor do mundo. Aliás, sobretudo para este. Caso contrário, instaura-se o vale-tudo e, se nos permitem as senhoras e senhoritas que nos lêem, segue-se o popular pega-pra-capar.

O atropelo das regras, por razões puramente políticas, extra-enxadrísticas, para colocar Fischer como candidato ao título foi mais um prego no caixão da estrutura estabelecida após a morte de Alekhine, em 1946. Naturalmente, era possível aperfeiçoar e mesmo mudar, se fosse necessário, aquela organização, desenhada fundamentalmente por Botvinnik. Desde que fosse para outra. Mas o rumo a partir do final da década de 50 não levava a outra estrutura, fosse melhor ou pior – levava a nenhuma, como ficou claro em 1993, quando Kasparov resolveu passar por cima, não mais das regras, mas da própria FIDE, com as conseqüências que até hoje não foram inteiramente superadas.

É necessário ressaltar, porém, que a anarquia implantada nos anos 90 – que tem relação direta com aquilo que se chama “a anarquia do mercado” - só foi possível porque a FIDE havia, no correr dos anos, atingido um grau de desmoralização que lhe tornou impossível resistir ao ataque daqueles a quem ela havia cedido paulatinamente durante 35 anos: basicamente, a cúpula e a mídia dos países centrais, que agora sustentavam Kasparov contra a FIDE.

O atropelo dos anos 70 foi, portanto, um prego no caixão da própria FIDE – que somente a partir de 2005, com o Torneio de San Luís, conseguiu algum sucesso em suas manobras de ressuscitação.

A semente desse estado de caos e desmoralização havia sido plantada pelas interferências em função da mal chamada “guerra fria” - facilitadas pela defensiva dos soviéticos, a chamada política de apaziguamento, inaugurada por Kruschev. Porém, esta semente não conseguiu cair em solo fértil logo no início do plantio. Pelo contrário, para isso foram necessários mais de 30 anos de adubagem – começando pela revogação do direito ao match-revanche, pela abolição do torneio de candidatos e, com destaque, para a forma como Fischer chegou a campeão mundial.

KISSINGER

No artigo de Al Lawrence que já mencionamos, um dos relatos mais importantes de Leroy Dubeck, presidente da Federação de Xadrez dos EUA (USFC) de 1969 a 1972, é o de que “foi um telefonema do Conselheiro de Segurança Nacional do Presidente Nixon, Henry Kissinger, que colocou Fischer em posição de sentido. ‘O Dr. Kissinger disse a Bobby que ele devia derrotar os russos pela América’, disse Dubeck. ‘A face de Fischer foi subitamente tomada por um olhar de determinação, como se ele estivesse indo para uma batalha’. Bobby seguiu para cumprir sua missão” (cf., Al Lawrence, “Fischer: fame to fallout”, Chess Life Magazine, 09/2007).

Não é muito difícil, diante disso, compreender o ressentimento atual de Fischer com os EUA, depois que seus bens – inclusive os direitos autorais de seus livros – foram confiscados e sua prisão foi decretada pelo governo americano por ter rompido o bloqueio à Iugoslávia, medidas totalmente ilegais, baseadas apenas numa “ordem executiva” de Bush, o pai. Fischer, aliás, tem bastante razão quando diz que, antes que vencesse o match pelo campeonato do mundo, os EUA eram conhecidos como “um país do baseball ou do futebol americano”, esportes, digamos assim, de prestígio intelectual menor do que o xadrez. Para ser rigoroso, de prestígio, inclusive intelectual, menor do que o futebol que nós criamos a partir do que antes era o “rude esporte bretão”...

Lawrence localiza o telefonema de Kissinger nos momentos que antecederam a ida de Fischer para Reikjavik, onde foi o match com Spassky. E, pela forma como conta a história (“a face de Fischer”, etc.), Dubeck estava presente. No entanto, no relato deste, não há menção ao momento desse telefonema.

Certamente, as coisas podem ter acontecido do modo como diz Lawrence. Mas não é provável que isto seja tudo. Havia, sem dúvida, dificuldades de última hora, colocadas por Fischer, para viajar à Islândia. Mas, nesse momento, Fischer já havia vencido o Interzonal de Palma de Mallorca, já havia batido, por um placar inédito (6 a 0), dois outros candidatos a desafiante (Taimanov e Larsen), já havia derrotado Petrosian, último concorrente no seu caminho para chegar ao match com o campeão – e, para completar, Spassky já havia, no Torneio Memorial Alekhine, que os soviéticos, desastradamente, organizaram para sua preparação, chegado em sexto lugar. Não havia outro momento melhor para que ele chegasse a campeão do mundo.

Kissinger pode muito bem haver telefonado nesse momento, e deve tê-lo feito. Mas dificilmente foi o seu primeiro contato com a questão – e, de resto, com Fischer. Até porque suas funções como “conselheiro de segurança nacional” eram, sobretudo, as de coordenação da CIA e outros aparelhos semelhantes, como se tornou evidente um ano depois, no sanguinário golpe contra o presidente Allende, no Chile. Seja como for, sua interferência é a hipótese mais provável para a mudança de Fischer após o campeonato dos EUA, sua súbita decisão de aceitar as irregulares gestões para colocá-lo no Interzonal de Palma de Mallorca.

Nos detivemos especificamente nessa questão porque os telefonemas de Kissinger, recentemente, foram matéria de polêmica, depois do lançamento de “Bobby Fischer Goes to War”, dos ingleses David Edmonds e John Eidinow, em 2004. O livro é bem característico de certo tipo de jornalistas – não necessariamente ingleses ou norte-americanos: um pires de superficialidade com uma coleção de preconceitos anticomunistas. Entretanto, mesmo para essa espécie de obra, os dois autores são muito exagerados: até mesmo o “Washington Post”, numa resenha assinada por Andrew Meier, não conseguiu deixar de, pelo menos de passagem, registrá-lo.

A documentação de “Bobby Fischer Goes to War” é bastante débil. Por exemplo, a KGB é acusada de cobras e lagartos, sem que nenhum documento dos seus arquivos (abertos desde 1992, portanto, 12 anos antes da publicação do livro) seja sequer mencionado. Mas, no livro, são relatados dois telefonemas de Kissinger para Fischer. Um deles antes da viagem para Reikjavik, que parece ser o mesmo citado por Dubeck, e outro depois da segunda partida do match – à qual Fischer, derrotado na primeira partida, não compareceu, arriscando-se a ser desclassificado, não fosse a complacência infinita da FIDE. Quantos outros telefonemas ou contatos do governo americano com Fischer houve nessa época, é questão que ainda não é clara.

Totalmente claro é que o coronel Ed Edmonson se transformou num verdadeiro controlador de Fischer nessa época. Quando não conseguia controlar, como nos dois casos citados, apelava para instâncias mais acima.

TURBILHÃO

Fischer venceu o Interzonal de Palma de Mallorca com 18,5 pontos, uma diferença excepcional de 3,5 pontos em relação aos segundos colocados - o dinamarquês Bent Larsen, o soviético Efim Geller e o alemão ocidental Robert Hubner. Além desses, saíram classificados do Interzonal, para disputar os matches com os candidatos já pré-classificados (Petrosian e Korchnoi), o soviético Mark Taimanov e o alemão oriental Wolfgang Uhlmann. A única derrota de Fischer havia sido para Larsen, durante a nona rodada. Como a maioria dos jogadores estratégicos (“posicionais”), como Capablanca ou Botvinnik, Fischer podia ser surpreendido, numa partida de torneio, por um jogador tático, como Larsen. Num match, este não perderia por esperar...

Esse resultado de Fischer seria apagado da memória de todos apenas cinco meses depois, quando, no match das quartas de final, derrotou o GM soviético Mark Taimanov por 6 a 0 (ou seja, num match previsto para 10 partidas, venceu seis partidas seguidas, sem nenhum empate e sem nenhuma derrota), um resultado completamente espetacular em confrontos entre Grandes Mestres.

Taimanov, também um grande pianista clássico, não tinha, até pela idade – 45 anos – condição de enfrentar Fischer num match. Na verdade, seu auge havia sido na década de 50. O fato de ter saído do Interzonal como um dos candidatos soviéticos, demonstra, mais uma vez, os problemas de renovação que o xadrez da URSS enfrentava na época.

O próprio Taimanov, ao descrever a terceira – e decisiva – partida do match, fornece uma descrição das dificuldades, e, antes de tudo, da intimidação dos jogadores soviéticos diante de Fischer: “O terrível sentimento de que eu estava jogando contra uma máquina que nunca cometia qualquer erro quebrou minha resistência. Fischer jamais permitia alguma debilidade em sua posição, ele era um defensor incrivelmente tenaz. (....) Depois de uma bela seqüência tática, coloquei meu oponente diante de sérios problemas. Numa posição que eu considerei ganhadora, não pude achar um caminho para romper suas defesas. Para cada idéia promissora, eu achava uma resposta para Fischer. Fiquei profundamente absorvido em pensamentos, que não produziram resultado positivo algum. Frustrado e exausto, eu evitei a linha crítica no final e perdi o fio do jogo, o que, em conseqüência, levou à minha derrota. Dez anos depois, pelo menos eu descobri como poderia ter vencido esse jogo fatal, mas, infelizmente, isso não tinha mais nenhuma importância” (entrevista de Taimanov ao GM francês Joel Lautier, Chessbase, 23/05/2002 – NOTA para os não enxadristas: “linha crítica” é aquela na qual, teoricamente, os dois lados realizam as melhores jogadas possíveis em cada posição que surge).

Fischer, havia muito, respondera a essa acusação (feita pela primeira vez, num acesso de ranzinzice, por Botvinnik) do seu jeito: “Não sou uma máquina. Sou apenas um homem, mas um homem extraordinário”.

Mas ele era um jogador muito preciso – Taimanov ressalta, corretamente, seus méritos como defensor, quando, geralmente, ele é conhecido como um jogador de ataque. No entanto, Fischer se arriscava pouco – como Capablanca, com quem foi comparado por Spassky, ele gostava de posições claras e seqüências rigorosamente lógicas.

Fischer tinha, porém, como todo jogador, seu calcanhar de Aquiles: as posições incertas, em que é difícil calcular as seqüências de jogadas e avaliar as posições que sairão delas. Ao contrário de Tahl - e, inclusive, de Smyslov - a intuição jamais foi a sua praia. O problema, como na época de Capablanca, é que havia muito poucos jogadores no mundo que conseguiam criar posições “incertas” jogando contra Fischer. Um deles, o citado Mikhail Tahl, não era candidato ao título (acometido por seus problemas de saúde, ficara em 15º lugar no campeonato soviético de 1969, não conseguindo vaga para o Interzonal). Mas havia outro que já demonstrara essa capacidade: Boris Spassky, o campeão mundial, detentor de um retrospecto de três vitórias, dois empates e nenhuma derrota contra Fischer.

LARSEN

Embora isso não tenha sido enfatizado na época, era evidente que o sistema de matches favorecia Fischer, assim como o antigo sistema, o Torneio de Candidatos, era-lhe menos favorável. Não pelas razões que Fischer havia apontado em 1962. Enfrentar um só jogador várias vezes seguidas, para uma mente como a de Fischer, capaz de um vasto conhecimento das partidas do oponente, mas com repertório de aberturas razoavelmente restrito - ainda que alcançasse profundidade incomum em cada uma de suas linhas favoritas -, era um terreno mais fácil do que enfrentar oponentes diferentes a cada dia, com suas distinções de estilo e várias especialidades. O que não quer dizer que ele não pudesse, no início dos anos 70, sair vencedor num torneio de candidatos. Mas não deixa de ser verdade, por outro lado, que para jogadores mais velhos os matches são particularmente desgastantes.

Nos outros matches das quartas de final, Korchnoi venceu Geller, Larsen venceu Uhlmann e o ex-campeão Tigran Petrosian venceu Hubner. Nas semifinais, enfrentar-se-iam Fischer contra Larsen e Petrosian contra Korchnoi.

Muito poucos jogadores na história conseguiram os resultados de Bent Larsen: quatro vezes candidato a desafiante do campeão, Larsen foi primeiro colocado em três Torneios Interzonais (Amsterdã, em 1964; Sousse, em 1967; e, depois dos acontecimentos que estamos relatando, Biel, em 1976). Com exceção do próprio Fischer, ele era o mais forte jogador ocidental. Apesar disso, sua escolha de linhas pouco comuns – e, sobretudo, duvidosas – assim como seu retrospecto contra Fischer (5 derrotas, 2 vitórias e 1 empate), não prometiam uma surpresa contra o norte-americano.

Porém, assim mesmo, houve uma surpresa: o que se viu foi um massacre, o segundo em poucos meses. Fischer venceu outra vez por 6 a 0. Aqui, permitam-nos os leitores emitir uma opinião, sem dúvida discutível: Larsen nunca foi um jogador sólido, o que, do nosso ponto de vista, é uma função da profundidade do pensamento. A escolha excêntrica de aberturas escondia – ou, talvez, expunha – essa falta de profundidade.

Certas escolhas de Larsen mostram um evidente decolamento da realidade. Um fenômeno, aliás, ao qual ele nunca foi estranho – basta ver suas explicações para a derrota, em que, parece, ele acredita que o culpado foi o clima de Denver, onde se realizou o match (“Os organizadores escolheram a época [do ano] errada para esse match. Eu estava lânguido com o calor e Fischer estava melhor preparado para tais circunstâncias...”) ou sua subestimação de Capablanca (“apenas jogava bem xadrez. E daí?”), que mostra o quanto ele não conseguia se desligar do meramente espetaculoso.

PETROSIAN

Petrosian era um jogador de qualidade diferente de Taimanov e Larsen. Não por acaso – e contra um suposto favoritismo de Korchnoi – havia chegado ao match final dos candidatos. É verdade que já havia conquistado em xadrez todas as glórias possíveis. Exceto, naturalmente, ser campeão por uma terceira vez. Mas essa ambição, em si, parece jamais tê-lo mobilizado. Apesar disso, estava na final e seria um oponente mais difícil para Fischer do que qualquer um dos anteriores.

Logo na primeira partida, Petrosian refutou uma das linhas favoritas de Fischer, seguindo um estudo realizado por jogadores soviéticos, e ficou claramente melhor no tabuleiro. Foi então que aconteceu um fato único nos campeonatos mundiais: as luzes do Teatro General San Martín, em Buenos Aires, se apagaram. Os árbitros, então, paralisaram os relógios. Mas Fischer insistiu em continuar, no escuro, a análise da posição. Os árbitros permitiram. Quando as luzes se acenderam, a partida continuou de uma forma inusitada: o melhor atacante do xadrez mundial se defendendo com unhas e dentes e, atacando, estava o melhor defensor da história do xadrez. Mas o tempo foi fatal para Petrosian: com poucos segundos para terminar, ele erra - e Fischer acaba por ganhar a partida.

Mas, na segunda partida, Petrosian envolve o rei de Fischer numa perseguição que acaba no 32º lance. O score está igualado.

Na terceira, Petrosian outra vez consegue vantagem, mas Fischer escapa da derrota através de um empate por repetição de jogadas.

Na quarta partida, insolitamente, é Fischer quem oferece empate após alguns poucos lances. Seu conhecido espírito de luta parece arrefecido.

Na quinta, depois de recusar o empate proposto por Petrosian, Fischer, logo em seguida, propõe o mesmo, que é aceito. Larry Evans, um dos “segundos” de Fischer, fez, então, um comentário revelador: “Petrosian está fazendo com que Bobby jogue o tipo de xadrez que ele joga”,

Porém, na sexta partida, Petrosian joga mal, erra, e Fischer vence. O cansaço e a progressiva exaustão começam a ser fatores de peso - contra o soviético. Esse era, frisamos, o terceiro match que os jogadores disputavam no espaço de poucos meses (entre maio e setembro de 1971). E Petrosian tinha 14 anos a mais do que Fischer.

A definição viria na partida seguinte – a decisiva do match. Fischer finalmente faz uma partida convincente e derrota Petrosian. Daí por diante, o cansaço e os problemas de saúde do soviético tornaram fácil para Fischer vencer mais duas partidas e fechar o match com 5 vitórias, uma derrota e três empates.

Com isso, só faltava Spassky no caminho de Fischer. Apesar de todos os seus problemas, o campeão não era um jogador fácil de derrotar, mesmo para Fischer.




Carlos Batista Lopes