Misérias e Glórias do Xadrez - Final
Carlos Batista Lopes

Enquanto promovia, com uma cobertura maciça da mídia, o rompimento de qualquer limite ou regra no xadrez mundial - e, não tenhamos dúvida, a falta de limites e regras não favorece a maior democratização ou igualdade, mas à submissão a quem tem mais poder ou dinheiro - Kasparov continuava posando de libertário: “Eu não preciso do reconhecimento de uma organização burocrática como a FIDE. Sou o melhor do mundo e prefiro demonstrá-lo nos torneios e com o reconhecimento das pessoas”.

Um “Luis XIV de pacotilla”, classificou José Luis Rescalvo, em seu artigo “História de uma infâmia”. Com efeito.

Mas, provavelmente, é pior. Em nome de ser “o melhor do mundo”, ele não pretendia, como Luís XIV, ser a encarnação da organização coletiva. Pelo contrário, pretendia estar acima de qualquer organização coletiva - pois não era dos entraves burocráticos da FIDE que estava falando, mas da própria FIDE como instituição. Essa linguagem, muitos não terão dificuldade em reconhecer: a de considerar “burocrático” não o que realmente é, mas a coletividade em si mesma, porque ela impõe limites, antes de tudo limites morais. Certamente, a coletividade só deixará de ser “burocrática” quando estiver submetida ao “melhor”... Em suma, a linguagem mais chula do fascismo.

Valery Salov tem razão ao dizer que “Kasparov é um embusteiro em série”. Evidentemente, Salov estava falando em termos políticos. No entanto, a única credencial de Kasparov como político é sua carreira no xadrez. Portanto, estamos diante de uma questão enxadrística importante: ele tem sido promovido insistentemente a melhor jogador da história, porque, segundo argumentam seus partidários, nenhum teria ficado tanto tempo acima de todos os outros. O fato de que nenhum outro, desde Alekhine, tenha se colocado acima de qualquer regra, não parece aturdir esses cavalheiros.

Nem, muito menos, o fato de que afastou possíveis desafiantes e desafetos declarados, usando o poder econômico dos patrocinadores. E, por último, nem o fato completamente inédito de que no lugar de onde poderia vir contestação, os países que antes formavam a URSS, a estrutura do xadrez, principalmente a que formava os jogadores, pela primeira vez desde 1945 estava em frangalhos ou deixara de existir. Some-se a isso o apoio de uma tremenda cobertura de mídia, dinheiro a rodo e oponentes intimidados – e temos aqui as condições em que Kasparov se impôs.

Mas, examinemos o argumento sem outras considerações. Veremos que também não é verdadeiro: Steinitz e Lasker tiveram predominância por mais tempo que Kasparov. E o fato de Capablanca ter sido campeão mundial durante apenas seis anos não torna Kasparov melhor do que Capablanca. Ou melhor do que Fischer, campeão durante três anos.

Mas é aí nesse instante que aparece o outro argumento dos kasparovistas: o rating ELO. Vejamos o que significa.

ELO

Em 1970, a FIDE resolveu adotar, para medir a força relativa dos jogadores, o sistema usado desde 10 anos antes pela Federação dos EUA (USFC), denominado ELO devido ao autor do modelo matemático, Arpad Elo.

É fato que a FIDE precisava de um método menos subjetivo de estabelecer ratings (isto é, números que expressam a força relativa dos jogadores) do que o adotado até então - e optou pela proposta de Elo.

Gligoric, que esteve presente à reunião da FIDE que adotou o sistema, afirmou, em entrevista ao GM Alexander Baburin, que o próprio Arpad Elo, nessa reunião, alertou sobre a necessidade de correções futuras, pois, por sua fórmula, os ratings tendiam à inflação. Hoje, inclusive, a maior parte das organizações que utilizam o sistema já incluiu correções para evitar distorções maiores.

Em poucas palavras: como a base do modelo é estatística, o significado do rating muda de acordo com a base estatística - o que equivale a dizer: de acordo com a época. Assim, o próprio Elo, em seu livro “The Rating of Chessplayers, Past and Present”, de 1978, escolheu os cinco melhores anos das carreiras dos jogadores como base para estabelecer ratings. Poderia ter escolhido outra base - e o resultado seria diferente.

Reparemos que, mesmo considerando um único critério, isso, na prática, não evita algumas deformações importantes: com a mesma base estatística, Elo concede o rating 2.690 tanto para Alekhine quanto para Smyslov quanto para Morphy. No entanto, o último, Paul Morphy, um jogador norte-americano de origem hispânica do século XIX, simplesmente arrasou todos os seus contendores, nos EUA e na Europa, entre 1849 e 1869, vencendo 83% das partidas que disputou em competições, sem absolutamente ninguém que pudesse chegar perto, o que não é o caso nem de Alekhine nem de Smyslov.

Pelo menos, o professor Elo tem algum senso do ridículo. Usando uma base diferente, outro autor calculou uma lista dos mais altos ratings já atingidos por jogadores de hoje e de ontem, onde Mikhail Tahl está em 38º lugar, Lasker em 27º, Botvinnik em 26º e Capablanca em 27º. O primeiro, claro, é Kasparov. Mas, o leitor já ouviu falar, por exemplo, em Dmitry Jakovenko? Trata-se de um promissor jovem de 24 anos, mas não há nada que tenha feito para que esteja quatro lugares acima de Capablanca (!), cinco acima de Botvinnik (!!), seis acima de Lasker (!!!) e 17 lugares acima de Tahl!!!! (O polonês Przemek Jahr é mais modesto: sua lista omite Capablanca, Lasker e Botvinnik; Tahl, no entanto, está em 27º – atrás até mesmo de Kasimdzhanov e outros que, convenhamos, estão muito longe de ser grandes jogadores no sentido em que Tahl foi grande).

Não continuaremos mais a mostrar as distorções do cálculo de rating. Resta apenas observar que, com o comercialismo desenfreado, instituiu-se uma verdadeira ditadura do rating. É impressionante a obsessão de alguns com esse número. A origem dessa obsessão é evidente: cada vez mais os torneios são organizados em função dele. Alguém poderia dizer que, antes do sistema ELO, já eram. Sem dúvida é necessária uma forma de fazer com que os enfrentamentos sejam entre jogadores de força semelhante. No entanto, algumas das melhores coisas acontecidas em xadrez estiveram em partidas entre jogadores presumivelmente de força diferente. Se o sistema ELO existisse na época de Capablanca, como ele poderia, em 1911, ter jogado em San Sebastián, um torneio onde passou de desconhecido para vencedor em algumas semanas? No entanto, o problema não está essencialmente no sistema ELO, mas no modo como é usado - e manipulado. No momento, a situação é tal que até entre os Grandes Mestres – cujos critérios para a obtenção do título foram relaxados - existem os de primeira e os segunda categoria (ou, talvez, de primeira, segunda e terceira categorias...), dependendo do rating. O que não ajuda nem um pouco a enriquecer o desenvolvimento do jogo.

As conseqüências práticas – que, no final das contas, é o que importa - foram muito bem resumidas pelo GM armênio Serguei Movsesian, um dos finalistas do mundial de 1999, em carta aberta a Kasparov, respondendo à tentativa de enxovalhamento deste a essa disputa, organizada pela FIDE em Las Vegas. Por isso, transcrevemos alguns trechos:

A questão não é: 'por que jogam sempre os mesmos em tais torneios?', mas, 'por que devem considerar-se a elite do xadrez, quais os critérios que dizem que eles são melhores que os demais mortais?'. Se nos basearmos nos ratings, então esses jogadores sem dúvida têm vantagem, porque ao jogar continuamente em torneios de alta categoria, sem o risco de perder pontos, redistribuem-nos entre si (....), enquanto os jogadores 'mortais' estão lutando por subir seus ratings, como é obrigação dos verdadeiros desportistas. Na realidade, você [Kasparov] e seus fornecedores de pontos abusam das imperfeições do sistema Elo (....). Por certo que o sistema de torneios com uma composição permanente de participantes já tem seguidores de 'êxito', [mas] se nos basearmos na força de jogo, não creio realmente que os componentes da 'élite' sejam melhores que os 'mortais' (....). Creio que você está condenado a proteger a seus favoritos, que pensam que você é Deus, sem os quais estaria obrigado a jogar com os 'plebeus'.

É divertido que você compare os acontecimentos enxadrísticos com o tênis: 'Não posso recordar um torneio do Grand Slam sem a participação dos números 1, 2, 3 y 4 do ranking oficial, além do vencedor da edição anterior'. Mas você se 'esquece' imediatamente de dizer o mais importante: em todos os torneios de tênis os jogadores da 'élite' começam sua participação na segunda eliminatória e lutam pela vitória com os jogadores 'que andam a pé'. (....) Mas o que temos no xadrez? Seus torneios de 'élite', com uma composição permanente de participantes, fiéis súditos de Sua Majestade”.

SOFTWARE

Voltando ao aspecto enxadrístico, se compararmos a contribuição de Kasparov com a de Botvinnik, Petrosian ou até mesmo Karpov, não é difícil concluir que seu predomínio deveu-se a outros fatores que não a profundidade estratégica. Este aspecto essencial do jogo ele absorveu bem, de Botvinnik e outros. Mas nunca se notabilizou por desenvolvê-lo.

Ele foi o primeiro jogador, em nível magistral (ou seja, em nível de mestre e grande mestre), a se beneficiar do uso de computadores. Numa de suas entrevistas, diz ele que tinha armazenadas em seu computador 4 mil variantes. Se é verdade ou se era uma fanfarronada, não sabemos. Mas é perfeitamente possível. Junto com uma memória digna de um idiot savant, isso, pelo menos no começo de sua carreira, não foi pouca vantagem - Karpov, por exemplo, até hoje parece pouco adaptado aos computadores.

Mas o significado disso está, antes de tudo, no aspecto tático, o aspecto em que a maioria dos softwares de xadrez consegue bom desempenho. E, realmente, Kasparov, como Alekhine, foi antes de tudo um tático – o que não quer dizer, evidentemente, que não conhecesse estratégia (apesar do que já dissemos acima, essa ressalva é necessária em razão dos kasparovistas na mídia estarem sempre dispostos a usar um mal entendido - portanto, não venham argumentar que nós dissemos que se trata de um ignorante em estratégia, porque não foi isso o que dissemos). O match de 1995 contra Anand - este um jogador mais estratégico, “posicional” - é bem característico do que estamos dizendo.

Porém, o mais importante é que, declarando-se campeão mundial por fora da FIDE, isto é, acima de qualquer regulamentação, Kasparov escolhia seus oponentes. Assim, em 1998, com sua associação algo no ridículo, e sem que houvesse regra alguma para apontar o desafiante ao seu suposto título, ele quis organizar um match entre Anand e o então jovem Vladimir Kramnik. Qual o critério? Como ficou evidente depois, o critério era a vontade dele: Anand, ele já havia derrotado uma vez e Kramnik havia sido seu “segundo”. Portanto, devia achar que enfrentar o vencedor desse match era o menor risco.

No entanto, Anand, que tinha um contrato com a FIDE, recusou. Acertou-se, então, um match entre Kramnik e Alexei Shirov, na época em grande forma. O vencedor enfrentaria Kasparov.

Mas Shirov tinha Valery Salov como treinador. Apesar de ser um jogador excepcional, Salov teve sua carreira encurtada pelas freqüentes recusas dos organizadores de torneios a convidá-lo: esta era uma condição imposta por Kasparov à sua própria participação. No entanto, ele havia sido campeão mundial sub-16 (1980); campeão europeu junior (1984); primeiro lugar (empatado com Alexander Beliavsky) no Campeonato da URSS de 1987; segundo lugar (empatado com Artur Yusupov) no Campeonato da URSS de 1988 (atrás apenas de Karpov e Kasparov, que terminaram empatados em primeiro lugar); e duas vezes esteve entre os candidatos a desafiante do campeão mundial (1988 e 1996).

Apesar dessa trajetória, como ele declarou em 2000, numa entrevista coletiva em León, “vetado por Kasparov, não tive um só convite nos últimos três anos aqui na Espanha e praticamente nada em todo o mundo”. Não era uma queixa: “sou muito otimista quanto às perspectivas”, disse ele.

Mas, aconteceu o que Kasparov não esperava. Shirov derrotou Kramnik. Então, Kasparov recusou-se a cumprir o contrato que o obrigava a enfrentá-lo. Segundo suas palavras, Shirov “não era comercial” e isso dificultava conseguir patrocinadores. Além disso, a empresa de Kasparov e associados jamais pagou a Shirov o prêmio acordado para o match com Kramnik, enquanto que este recebeu a sua parte. Em suma, o match valia, desde que o vencedor fosse quem Kasparov queria... Mas exatamente aí ele se enganou: ao achar que Kramnik seria mais fácil do que Shirov.

Seja como for, esse critério da falta de comercialidade de Shirov nem mesmo necessita de comentários. Imagine-se o que seria de qualquer esporte submetido de forma absoluta a esse critério. No mínimo, a Ana Maria Braga seria campeã olímpica de alguma coisa.

No entanto, Shirov é um daqueles táticos espetaculares - seria difícil achar que um jogador mais sólido, como Kramnik, pudesse ser, nessa época, mais “comercial” do que Shirov. É inevitável chegar à conclusão de que Kasparov queria evitar o confronto com Shirov por outra razão - sabe-se lá o que podia acontecer num match com um jogador tão imprevisível quanto ele... Em suma, o problema era medo de perder, o que não era impossível - o resultado do match com Kramnik demonstrava que não era.

Em meio a uma grita geral - Shirov, antes soviético e letão, naturalizara-se espanhol e era o principal jogador de seu novo país - Kasparov anunciou que “preferia” jogar com Anand do que com o vencedor de Kramnik. Mas Anand respondeu outra vez, e publicamente, que tinha contrato com a FIDE e era “homem de palavra”. Algo que, provavelmente, Kasparov não entendeu. Afinal, oferecia-se um prêmio de US$ 2 milhões, com o vencedor levando 2/3. Que história é essa de palavra?, deve ter pensado.
Depois de dois anos de confusão, em que empresas-fantasmas entravam e saiam de cena, realizou-se o match entre Kasparov e Kramnik - e Kasparov perdeu.

A derrota (não conseguiu vencer nenhuma partida, enquanto Kramnik, um excelente jogador posicional, isto é, estratégico, venceu a 2ª e a 10ª) selou o destino das siglas inventadas por Kasparov. Na verdade, nunca se tratou de um verdadeiro campeonato mundial, mas da promoção dele como herói da reação numa área em que os soviéticos – isto é, para todos os efeitos, os comunistas – tiveram longa hegemonia.

FIDE

Para terminar esta série - que nunca pretendemos fosse tão longa - restam algumas palavras sobre a época posterior à falência do mercantilismo desregrado no xadrez, época que ainda não foi inteiramente superada, mas cujo período mais selvagem e obscurantista já ficou para trás.

Em 1995, com o pires na mão, a FIDE mudou seu presidente. Florencio Campomanes fui substituído por Kirsan Ilyumzhinov, também presidente da República da Kalmykia, um pequeno país às margens do Mar Cáspio, antes parte da URSS e hoje integrante da Federação Russa (os kalmíkios não chegam a 200 mil pessoas - somando-se os cidadãos de outras nacionalidades, principalmente russos, a república tem menos de 300 mil habitantes).

Aqui, mais uma vez, é necessário um cuidado especial para atermo-nos somente aos fatos, pois a propaganda contra Ilyumzhinov é algo fenomenal. O que sabemos de seguro é que ele tornou-se bilionário da mesma forma que os outros bilionários da ex-URSS: apropriando-se do patrimônio público.

É verdade que em relação às pretensões estrangeiras sobre o petróleo, o gás natural e o carvão, que são abundantes em seu pequeno país, ele tem mantido uma atitude de recusar a sua entrega.

Salov, que, diante da confusão no xadrez mundial, advogou a reunificação em torno da FIDE, ao ser interpelado sobre Ilyumzhinov pelo Mestre Internacional Ricardo Calvo, que acusava o presidente da Kalmykia, entre outras coisas, de mandar assassinar uma jornalista, por sinal, reacionaríssima, deu uma resposta interessante: “O Sr. Yeltsyn, o ex-presidente da Rússia, se encarregou pessoalmente de matar cinco mil civis em outubro de 93, de fuzilar o Parlamento legitimamente eleito, violando todos os princípios democráticos. E o que estavam escrevendo todos os nossos livres e democráticos jornalistas? - que ele era a única garantia da democracia na Rússia, que era algo necessário, que havia sido um mau Parlamento (....). A esse assassino em série estavam apoiando todas as forças 'democráticas' do mundo. (....) Então... Vamos deixar de demagogia (....). O Sr. Ilyumzhinov investiu mais de 20 milhões de dólares no mundo do xadrez. É a única diferença que há entre o Sr. Ilyumzhinov e qualquer outro político russo e, inclusive, diria eu, qualquer outro político americano”.

Que o xadrez mundial esteja dependendo, em boa parte, de Ilyumzhinov, não é a melhor coisa do universo. O próprio Salov, comentarista oficial da FIDE nos matches de candidatos deste ano, em Elista (capital da Kalmykia), recebeu uma censura pública da entidade por entrar em assuntos políticos ao entrevistar, para o boletim do evento, a chinesa Xie Jun, duas vezes campeã mundial feminina. Salov havia comentado que “o Ocidente da Europa e os EUA são países totalitários (...). A imprensa está totalmente controlada”. Xie Jun lembrou que na China “temos só um partido, o comunista”. E Salov: “Nos EUA também só tem um partido, mas com dois nomes diferentes”.

Realmente, era demais para Ilyumzhinov.

Apesar disso, o torneio de San Luís, Argentina, em 2005, do qual o GM búlgaro Veselin Topalov saiu campeão mundial, o match de 2006, em que Kramnik venceu Topalov, e o recente torneio da Cidade do México, do qual Viswanathan Anand saiu campeão, são fatos, como diria alguém antigo, alvissareiros e auspiciosos.

No entanto, a principal esperança do xadrez é a força coletiva dos enxadristas. Não é uma frase vazia: o movimento contra a guerra no Iraque, a que, em massa, os enxadristas aderiram, mostrou que essa força é real. Na época, houve apenas uma exceção: Kasparov, que advogou não somente o bombardeio e a invasão do Iraque por Bush, quanto a extensão da guerra à Síria e ao Irã. Mas isso, leitores, é uma voz do além. Que o diabo se encarregue dele.

E por aqui ficamos, agradecendo a audiência - e a paciência.


Carlos Batista Lopes