CURIOSIDADES

 Publicado em 08.11.2004

 

Curiosidades

01. O mestre pode. Um forte amador pediu ao GM mexicano Carlos Torre que analisasse uma de suas partidas. Torre não queria perder tempo com partidas de capivara, mas o jogador tanto insistiu que Torre concordou, embora sob uma condição: pararia a análise assim que constatasse um erro gravíssimo. Ficou combinado. O sujeito começou a mostrar a partida: 1.e4 e6 2.d4 d5 3.Cc3 Cf6 4.e5 ...Cg8. "Pode parar - disse Torre - esse lance preto é horroroso." O homem replicou: "Não é bem assim, maestro, a idéia do recuo do cavalo é sutil. Nimzowitsch, por exemplo, já experimentou esse lance e venceu!" Ao que Torre respondeu: "Nimzowitsch é um gênio, ele pode jogar isso. Mas você não, você tem que respeitar as regras de desenvolvimento das peças." Ah se todos nós lembrássemos dessa história!

02. Nomes curtos. O jovem Leonid Stein tinha acabado de perder para o veterano GM Salo Flohr. Para consolá-lo, Flohr contou uma piada: "Não fique triste. Olha,em breve os nomes curtos vão ser melhores do que os nomes longos. Veja por exemplo Liliental, um grande jogador no passado. Agora, quem se destaca é Tal. Com você vai ser assim também. Em breve, Bronstein vai ter que ceder o lugar para Stein!". Poucos anos depois, a "profecia" foi cumprida: Stein venceria três campeonatos soviéticos!

03. Com tabuleiro. Richard Réti e Alexander Alekhine encontraram-se no trem e começaram a analisar uma posição às cegas (sem o tabuleiro nem as peças, só de memória). Depois de alguns minutos, Alekhine virou-se para Réti e disse: "Olha, todos sabem que nós dois somos os melhores jogadores às cegas do mundo. Por que então não utilizamos um tabuleiro de verdade?".

04. Assassino de si mesmo. O GM húngaro Geza Maróczy era conhecido pela elegância e polidez com que tratava a todos. O GM letão Aaron Nimzowitsch era famoso exatamente pelo contrário, pelo mau humor e falta de tato com que tratava a quase todos. Certa vez, Nimzowitsch foi tão ofensivo que Maróczy reagiu convocando-o para um duelo no dia seguinte. O irado Nimzowitsch não compareceu ao encontro. Justificou-se assim: "Não vou contribuir para meu próprio assassinato."

05. Grande fígado. O GM inglês Blackburne foi um dos mais fortes jogadores do mundo nas últimas décadas do século XIX. Na lista de suas vítimas, incluem-se Steinitz, Tchigorin, Em. Lasker, Tarrasch, Pillsbury e Alekhine. Suas partidas eram especialmente inspiradas pelas bebidas alcoólicas. Conta-se que ele era capaz de esvaziar duas garrafas inteira de uísque numa sessão de partidas simultâneas. Morreu aos 83, idade bastante avançada para quem viveu e bebeu na sua época. Um grande cérebro e, pelo visto, um grande fígado.

06. Yoga. Aaron Nimzowitsch descobriu que a prática de Yoga, a milenar prática física e mental indiana, poderia melhorar seu desempenho nos torneios de xadrez. Experimentava os movimentos do yoga nos próprios torneios. Enquanto o adversário meditava em busca do lance, Nimzowitsch ia para o chão e colocava-se de cabeça para baixo. Acreditava que desta maneira o sangue desceria para o cérebro e ajudaria a pensar melhor. Algumas vezes esse troço funcionou muito bem. Mas desconfio que se você não for Nimzowitsch, não fluirá tanto sangue assim para sua cabeça.

07. Melhor para ele. Partida amistosa de uma amador contra um forte jogador. Ao amador dirigiu-se a Emanuel Lasker, que observava o jogo, e perguntou: "Qual o melhor lance nessa posição?". Lasker respondeu: "Jogue g2-g4." O pobre incauto seguiu o conselho e, inesperadamente, seu adversário respondeu com a dama, que deu o mate. Estarrecido, o indivíduo virou para Lasker e perguntou, meio sem acreditar, meio furioso: "Mas o senhor não disse que essa era o melhor lance?". "Sim - respondeu Lasker - o melhor para seu adversário." No fundo, essa era a maneira de jogar xadrez de Lasker: ele encaminhava a partida para posições em que seus adversários, perplexos, se interrogavam: "essa posição é boa, é óbvio, mas para qual de nós dois?"

08. Sumiço da torre. Na União Soviética havia uma tipo de simultânea dada por dois grandes mestres que jogavam alternativamente. O GM1 fazia o lance contra todos os tabuleiros, que, em seguida, respondiam. Era então a vez do GM2 fazer os lances em cada tabuleiro. Depois das respectivas respostas, o GM1 retornava e assim a partida continuava. Certa vez, Averbach foi jogar um lance quando percebeu que estava com a torre a menos. Mesmo com a posição perdida, ainda fez dois ou três lances. Depois que a exibição acabou foi conversar com Bondarevsky: "Como é que você perdeu aquela torre?". Ao que Bondarevsky replicou: "Ué, eu perguntar exatamente isso!". Os dois se olharam e perceberam que tinham sido roubados pelo esperto amador.

09. Endereço do hotel. Emanuel Lasker era um tanto distraído. Certa vez, hospedou-se num hotel e foi ao clube da cidade. Depois da simultânea e do jantar, oferecem carona de volta para hotel. Neste momento, Lasker percebeu que não sabia nem o nome nem o endereço do hotel onde havia deixado suas bagagens. Tiveram que percorrer a cidade inteira até encontrar o lugar correto.

10. Relógio. Conta-se que Garry Kaspárov, o "Ogro", como dizem os espanhóis, tem o hábito de retirar o relógio do pulso assim que a partida começa. O relógio fica ali, sobre o tabuleiro. Quando Kaspárov sente que a partida está chegando ao fim e que ele será o vencedor, pega o relógio e bota de novo no braço. Uma maneira sutil de dizer pro adversário: "Bom, vamos acabar logo com isso que não tenho tempo a perder." Pressão sobre o adversário? Sem dúvida. Mas já houve adversários que, pelo menos em algumas ocasiões, fizeram Kaspárov esquecer do relógio.

11. Futebol. Quem joga xadrez é capaz de jogar futebol? O clichê é o jogador frágil, distraído e que derruba os objetos em seu redor. Mas as coisas não são bem assim. O esporte de Ljubojevic era o futebol e foi por causa de uma longa contusão que ele aprendeu a jogar xadrez, como já tinha 16 anos de idade (mais tarde, seria um dos dez melhores do mundo). O GM Peter Leko foi titular de um time juvenil húngaro. O melhor de todos, porém, foi o GM norueguês Agdestein. Forte jogador de xadrez, também foi titular da seleção norueguesa de futebol, autor de um gols importantes. Por exemplo, na vitória contra a Itália na Copa da Europa. Se o nosso leitor jamais fez gol contra a seleção da Itália, talvez possa um dia ostentar o título de Grande Mestre Internacional...

12. Senhoras. Para os psicanalistas de plantão: Alekhine foi casado com mulheres muitos anos mais velhas dos que ele. Certa vez, ainda jovem, foi a um baile. Havia moças bonitas, frescas e jovens como a primavera, mas ele não prestou a menor atenção. Mas quando vislumbrou uma senhora com vinte anos a mais do que ele, Alekhine não conteve a agitação e fez de tudo para dançar com ela. Seu entusiasmo era surpreendente. 

13. Escarlatina. Alekhine foi internado no hospital de Praga (República Tcheca) em 1942 para tratar de febre escarlatina (doença transmissível produzida por um estreptococo). No mesmo hospital o GM tcheco Richard Réti havia morrido de escarlatina em 1929. Alekhine, que era supersticioso, não achou nem um pouco interessante a coincidência. Mas sobreviveu para morrer em 1946, em Lisboa.

14. Moscou 1959. O torneio internacional em memória de Alekhine em 1959 teve um trio de vencedores: V. Smyslov, D. Bronstein e B. Spassky. Superam vários GMs, entre eles Vasiukov, Portisch, Larssen, Filip e F. Olafsson. Smyslov e Bronstein terminaram invictos. Spassky sofreu uma única derrota, para Smyslov, que venceu o torneio pelo critério SB. Smyslov tinha sido campeão mundial, Spassky conquistaria o título dez anos depois. Bronstein havia empatado o match de 24 partidas pelo título mundial, contra Botvínnik em 1950. Três gigantes da história do xadrez, dois ainda vivos, Botvinnik já é falecido (novembro de 2002).

15. Comandante Che. Ernesto Che Guevara, o comandante da guerrilha comunista vitoriosa na Revolução Cubana de 1959, ainda hoje aparece em estampas de camisetas. Ícone dos anos 1960s, talvez seja menos lembrado por suas idéias do que por sua imagem de jovem rebelde ("sem causa"?). Che Guevara era argentino e como tantos argentinos, um bom amador de xadrez. Existem fotos dele jogando xadrez e partidas anotadas. Jogou numa simultânea contra contra o fortíssimo GM Miguel Najdorf e conseguiu empatar ("tablas", como dizem nuestros hermanos argentinos.)

16. Filatelia. O xadrez tem recebido centenas de homenagens dos Correios de muitos países dos cinco continentes, que lançam selos com imagens dos grandes campeões mundiais. Um dos motivos para tantas atenções foi a prática de xadrez por correspondência entre jogadores de todos os cantos do planeta. Entretanto, o xadrez por cartas tende a desaparecer, substituído pela comodidade (e preço) da mensagem eletrônica (e-mail). O ex-campeão mundial Anatoli Kárpov é fanático por coleção de selos, e conta-se que já gastou 60 mil dólares para comprar um selo raríssimo.

17. Apreciando a partida. Há um ditado judaico-russo que pôde ser adaptado para o xadrez: o amador estuda a partida do mestre e a aprecia três vezes. Primeiro, quando vê a partida. Segundo, quando lê os comentários. Terceira, quando entende o que aconteceu. (O leitor tem três chances para sorrir...)

18. Short e os malucos. Numa entrevista, o GM inglês Nigel Short comparou os tipos de stress que atingem as diferentes modalidades esportivas. No futebol, o jogador se contunde e é tratado por um médico ortopedista e um fisioterapeuta. E no xadrez? O equivalente da contusão é o stress, e, em casos mais graves, os distúrbios mentais. Nestes casos, os profissionais indicados são o psicólogo e o médico psiquiatra. Entretanto, poucos jogadores são capazes de admitir a necessidade de recorrer a esse tipo de profissionais. Existe preconceito ("Psiquiatra é coisa de maluco ou de madame"). Sensato, Short descarta a idéia de que o xadrez produza loucos. É o contrário: o xadrez tem alguma coisa que parece exercer uma grande atração sobre os malucos.

19. Pontapés. T. Petrosian e V. Korchnnoi eram rivais há muito tempo na URSS. Quando Korchnnoi abandonou a URSS e se radicou na Suíça, a rivalidade parece ter aumentado. Afinal, agora nenhum dois precisava manter as aparências do "homem novo soviético". O vale-tudo da Guerra Fria permitia quase tudo. Então, as partidas entre os dois desenvolviam-se em dois planos. Em cima do tabuleiro, sangrentos combates produzidos pelo entrechoque das peças de madeira. Em baixo do tabuleiro, iradas batalhas de chutes, bicos e pontapés. Dor nas canelas dos mestres e dor na cabeça dos juízes. Como resolver? Os carpinteiros (que também fazem as peças...) construíram uma poderosa divisória de madeira para ser colocada embaixo da mesa que isolou os bicos de sapato dos dois futebolistas, digo, enxadristas.

20. Sexo e xadrez. Sexo é bom antes de uma partida importante? Sexo é bom, claro, mas será que, mesmo que você termine a performance ainda cedo e então consiga muitas horas de sono, não haveria um desgaste físico excessivo? Há quem diga que a diminuição dos hormônios também reduz a agressividade. Assim, os mais apressadinhos poderão até dizer que o jogador com mais, digamos, vontade, é tático, e os que têm menos, digamos, sede, tenderiam a ser posicionais. Mas há quem replique, alegando estudos freudianos que apontam os jogadores posicionais como masturbadores, ao passo que os táticos sofreriam de ejaculação precoce (não sei bem qual seria o equivalente feminino. Parece que as mulheres são melhores que os homens inclusive em relação a esses assuntos). Outros ainda poderão dizer que jogadores táticos apreciam o sado-masoquismo ao passo que jogadores posicionais preferem sexo oral / anal. Enfim, o asssunto é polêmico. Com certeza, o leitor encontrará muitos jogadores que preferem xadrez a sexo.

21. Frio & calor. Nunca conheceremos as sociedades e suas transformações se nos prendermos a determinismos geográficos. Mas ainda há quem ache que os russos jogam bem xadrez porque o país tem um inverno muito rigoroso. Essa tese não se sustenta quando lembramos que o Canadá e a Noruega são frios pra caramba e nem por isso se tornaram grandes potências mundiais do xadrez. Cuba é um país tropical e tem melhores jogadores do que a gélida Finlândia. Capablanca foi um gênio tropical que derrotou inúmeros mestres de países onde cai neve. É evidente que o xadrez na Rússia (na URSS, para sermos precisos) conheceu um extraordinário avanço graças ao apoio do Estado soviético aos programas de educação em massa de juventude.

22. Nomes de aberturas. Os nomes de aberturas podem ter várias origens: grandes jogadores (defesa Alekhine, variante Lasker, ataque Panov-Botvinnik, sistema Petrosian, variante Polugaevsky, contra-ataque Marshall, contragambito Albin, estrutura Maroczy), países e nações (defesa francesa, abertura escocesa, defesa eslava, abertura catalã), cidades (variante Scheveningen, variante Leningrado, defesa Cambridge Springs, abertura vienense, sistema London), nomes exóticos (variante dragão, gambito elefante, hedgehog - porco espinho, ataque Grande Prix, defesa ortodoxa, variante Stonewall - muro de pedra, ataque baioneta) ou simplesmente termos técnicos ou descritivos (gambito de rei, abertura do bispo, defesa dos dois cavalos, variante cerrada, variante clássica, variante das trocas). Às vezes, as aberturas recebem mais de um nome. Por exemplo, abertura Ruy López e abertura espanhola, Giuoco Piano e abertura italiana, defesa Petroff e defesa russa, defesa escandinava e contra-ataque central, gambito Volga e gambito Benko.

23. Frio dos russos. Petrópolis, cidade fundada por colonos alemães na serra fluminense (Estado do Rio de Janeiro), está a quase 1.000 metros de altitude em relação ao nível do mar. Nas noites de inverno, não são incomuns as temperaturas próximas de zero grau Celsius. Por causa disso, o imperador D. Pedro II costumava passar por lá os meses de verão. Frio para os brasileiros, mas certamente ameno para os europeus, e ameníssimo para os russos, correto, amigo leitor? Pois é, no interzonal de Petrópolis, em 1973, algumas manhãs tinham temperaturas agradáveis, próximas a 10 ou 15 graus. Quem estava na porta do local do torneio (Clube Petropolitano) pôde constatar, surpreso: os jogadores mais agasalhados, com casacos de peles, gorros e cachecol... eram os soviéticos! Não deixava de ser engraçado ver aqueles homens, acostumados com o frio de Moscou e Leningrado, tremerem com o friozinho da serra a uma hora de carro das praias do ensolarado Rio de Janeiro.

24. Livro bom. Bogoljubow era conhecido pela autosuficiência. Depois de ter escrito um livro muito bom de xadrez, andou perdendo algumas partidas de torneio. Sua conclusão não poderia ser outra: "Agora que todos leram meu excelente livro, fica fácil jogar de modo tão maravilhoso como eu."

25. Camisa velha. Contam alguns observadores mais atentos (e nós estivemos lá) que durante o interzonal do Rio de Janeiro em 1979, o soviético Tigran Petrosian jogou todas as rodadas exatamente com a mesma camisa. Superstição, falta de cuidado ou confiança na qualidade da lavanderia do Copacabana Palace? Sua esposa, Rona, era conhecida pelo cuidado com que protegia o marido. Bem, talvez Petrosian tivesse vários exemplares do mesmo modelo de camisa. Se a roupa ajudou eu não sei, mas o fato é que no final do interzonal, Petrosian estava entre os três classificados para o torneio de candidatos.

26. Nomes italianos. Nos séculos XVI e XVII e Itália viveu um esplêndido período cultural. Nomes como os de Leonardo da Vinci, Galileu, Michelangelo, Maquiavel e Monteverdi são glórias italianas e da humanidade. Esse florescimento intelectual certamente explica a importância dos jogadores italianos de xadrez naquele período. Alguns dos mestres da época publicaram os primeiros tratados teóricos do xadrez, entre eles o famoso livro de Grecco. Ainda hoje, alguns termos do xadrez italianos são empregados por jogadores de todo o mundo e em todos os idiomas. Por exemplo, fianchetto (pequeno flanco), gambito (perninha), ataque Fegatello ("pequeno fígado", certamente o frágil ponto f7 das pretas), abertura Giuoco Piano ("jogo suave").

27. Ronda do animal. Enquanto o adversário refletia a respeito do próximo lance, Alekhine gostava de levantar a cadeira e andar em círculos ao redor da mesa. Parecia um tigre faminto, rondando a vítima a ser devorada. É evidente que muitos jogadores ficavam perturbados com essa pressão psicológica. O inimigo que nos observa pelo cangote, depois funga e caminha apressado em volta do tabuleiro... que coisa desagradável! O soviético Mikhail Tal também tinha o mesmo hábito. Embora nas relações pessoais Tal fosse infinitamente mais afável do que Alekhine, sobre o tabuleiro era igualmente selvagem, um canibal terrível.

28. Ar viciado. Mikhail Botvinnik era capaz das maiores proezas durante a preparação para um torneio. Como todo não-fumante, ele detestava a fumaça do cigarro. O que fez então? Jogou várias partidas de treinamento nas quais seu preparador, o GM Ragosin, propositalmente fumava e dava baforadas bem no rosto de Botvinnik! Isso sim é que é maneira de enfrentar pressão psicológica.

29. Carecas e cabeludos. Quem joga melhor xadrez, os carecas ou os cabeludos? Naturalmente, a quantidade de material acima do couro cabeludo não tem ligação alguma com a quantidade de massa cinzenta abaixo do couro cabeludo. Vejamos: Anderssen, Tartakower, Spielmann, Mikhail Tal e Bronstein eram todos carecas. Curiosamente, mestres do agudo jogo combinativo. Lasker, Capablanca, Botvinnik, Petrosian e Karpov todos bem coroados por cabelos. Os cabeludos tenderiam a dar mais atenção ao jogo posicional? Timman continua cabeludo. Kasparov não é calvo, Kramnik até pouco tempo atrás tinha cabelos compridíssimos. Fischer usava cabelos curtos com topetinho, bem a estilo rapaz americano anos 60. Mas os anos passaram e ele perdeu bastante cabelo. Aliás, parece que o fenômeno se repetiu com o nosso GM Mecking. De qualquer modo, as irmãs Polgar são lindas e, claro, jamais ficarão carecas...

30. Mídia. Um grande mestre soviético ia participar de um programa na tevê de Moscou e estava um tanto nervoso. Pediu que a Mikhail Tal que fizesse uma sugestão: "O que devo falar amanhã, Misha?". Tal, sempre muito bem humorado, respondeu: "Diga para que ouçam o rádio. Estarei dando uma entrevista no mesmo horário!"

31. Rubinstein e Lasker. Uma dos crenças mais correntes no xadrez é a de que Emanuel Lasker nunca teria aceito a proposta de Rubinstein para um match pelo título mundial. Na verdade, Lasker havia anunciado que enfrentaria qualquer mestre que reunisse o dinheiro suficiente para a bolsa. Quando Rubinstein arrumou um patrocinador, Lasker aceitou o desafio. Mas o fracasso no torneio de São Petersburgo 1914 (ficou abaixo dos cinco primeiros) e as desgraças provocadas pela primeira guerra mundial arruinaram as chances do GM polonês. Verdade seja dita: em todos os torneios em que os dois participaram, Lasker sempre ficou na frente de Rubinstein. No confronto individual, o escore foi vantajoso para Lasker também. Emanuel Lasker foi um jogador extraordinário, e poucas pessoas hoje têm idéia do quanto era superior a seus contemporâneos.

32. Instrução. Ninguém se torna grande mestre apenas com o talento natural. São necessários anos de estudos de teoria de xadrez, várias horas por dia, dia após dia, anos após ano, ininterruptamente. Todo GM é também um erudito de xadrez. Mas será necessário ter educação superior para se tornar um bom jogador? Alguns dos maiores mestres não apenas terminaram a faculdade como atingiram o mais alto grau de estudo, o título de doutor (PhD). Foi o caso de Emanuel Lasker (matemática e filosofia), Euwe (matemática), Botvinnik (engenharia elétrica). Mas também houve fortíssimos jogadores que chegaram ao topo do mundo enxadrístico sem terem completado seus estudos secundaristas: Bobby Fischer, Leonid Stein e Tigran Petrosian.

33. Vitória no empate. Na última partida do match pelo campeonato mundial de 1935, o holandês Max Euwe precisava de apenas um empate para conquistar o título do russo Alexander Alekhine. No momento em que estava colocando as peças na posição inicial, Euwe esbarrou e derrubou o próprio rei. Então, dirigiu-se em voz a baixa ao adversário: "Doutor, aceito o empate a qualquer instante da partida." É óbvio que Alekhine não poderia concordar com o empate. Todavia, o desenvolvimento do jogo foi amplamente favorável a Euwe, que conseguiu dois peões a mais em posição totalmente ganha. Nada mais restou a Alekhine do que aceitar o empate e cumprimentar o vencedor do match.

34. Genro arriscado. Dois mestres de xadrez conversavam: "Você sabe, no clube há muitas pessoas que jogam xadrez a dinheiro, e apostam alto. Meu genro, infelizmente não joga xadrez." O outro perguntou: "Infelizmente? Ainda bem que ele não joga xadrez! Então, qual é o problema?". O amigo aflito esclareceu: "Pois é, esse é o problema: ele não joga xadrez..."

35. Ele "enxerga"!?. O GM alemão Sämisch dava uma exibição de simultâneas às cegas (sem ver o tabuleiro, jogando só com a memória). Na platéia, uma linda moça observava tudo com atenção. E Sämisch, claro, não tirava os olhos de cima da dama. No final da simultânea, a jovem não se conteve e protestou: "Isso é uma fraude. Ele não é cego conversa nenhuma. Enxerga tudo perfeitamente!"

36. Valeu Haroldo! O campeonato brasileiro de 1984 desenrolou-se em Cabo Frio RJ, no hotel Malibu, que fica em frente à praia do Forte. O torneio foi jogado em sistema suíço, aberto para todos que tivessem rating CBX superior a 2000. Mas houve uma grande exceção: o niteroiense Haroldo Cunha dos Santos Jr só tinha rating 1959 e foi autorizado a participar. Haroldo justificou plenamente a inserção: entre os 67 jogadores, chegou em 14o /18o lugar, ao lado de figuras notáveis como o MI Francisco Trois e Rubens Filguth. (* Hoje, o amigo Haroldo está radicado em Santa Catarina. Foi 5o lugar no campeonato brasileiro de 2001).

37. Tática e futebol. Originalmente, o xadrez é um jogo militar. Não é à toa que utilizamos termos técnicos militares como estratégia e tática. Estratégia tem a ver com planejamentos gerais e profundos. Tática está ligada à execução direta. No futebol, o termo tático tem sido empregado de forma incorreta. Técnicos e jornalistas confundem tática com estratégia. O que chama de tática é na verdade estratégia: colocação dos jogadores em campo, posicionamento do ataque, tipo de marcação, etc são aspectos estratégicos. O drible, o passe em profundidade, a batida de falta é que são aspectos táticos do futebol. Quando o time brasileiro esquece qualquer "esquema de jogo" e parte para tentar resolver a partir da habilidade individual de cada jogador, então podemos dizer que houve um abandono da estratégia em favor dos golpes táticos. Tal como no xadrez, as surpresas táticas podem funcionar no futebol, mas o que normalmente garante a vitória é um bom planejamento estratégico.

38.  Vencendo Capablanca. Nos anos 1920s, o cubano José Raul Capablanca foi considerado uma máquina de jogar xadrez. Seu estilo era quase perfeito. Nenhum outro sofreu tão poucas derrotas quanto ele. Raros mestres puderam vencer Capablanca, e somente uma única e exclusiva vez: Botvinnik, Euwe, Keres, Reshevsky, Réti, Janowsky, Rubinstein... Mais raríssimos ainda foram os jogadores que conseguiram a proeza de triunfar sobre Capablanca mais de uma vez. Na verdade, apenas quatro mestres alcançaram essa glória suprema: Alekhine, Lasker, Spielmann e Marshall.

39. Imbecilidade. Aaron Nimzowitsch não era exatamente um poço de simpatia. Certa vez, ao ser derrotado por um mestre a quem considerava muito inferior (Becker), não se conteve e declarou aos berros, para que todos ouvissem: "Meu Deus, como se explica que eu tenha perdido para esse imbecil?"

40. Jornalismo. Tartakower foi um forte grande mestre nos anos 1920s/1930s e também um reputado crítico literário e jornalista. Bom escritor e bom jogador, dizia-se que ele era "o melhor jogador de xadrez dos jornalistas, o melhor jornalista de todos os jogadores de xadrez".

41. Do que entendo. Corria a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) e o general alemão ordenou que chamassem o garoto prodígio (Wunderkind) polonês para jogar com ele. Samuel Reshewsky era judeu, mas durante a Primeira Guerra não existia ainda o nazismo. Muitos judeus lutaram nos exércitos alemão e austríaco. Por isso, o general não deve ter visto muito problema em enfrentar o pequeno mestre judeu polonês. Logo iria se arrepender, porque o menino Reshewsky deu uma tremenda surra sobre o tabuleiro quadriculado. Depois de derrotar o comandante, o menino ainda demonstrou sua independência de pensamento: "O senhor pode entender de guerra, mas quem entende de xadrez sou eu."

42. Proposta. No campeonato brasileiro de 1965, Henrique Costa Mecking jogava com o experiente ex-campeão Olício Gadia. A partida foi suspensa na última rodada. Gadia estava em posição muito inferior, mas sabia que Mecking precisava apenas do empate para ser campeão. Imaginou que o rapaz não iria perder tempo nem correr riscos desncessários. Por isso, fez a sugestão oportunista: "Proponho o empate." Ao que Mecking replicou: "E eu proponho o abandono!". Mequinho tinha apenas 13 anos de idade. Ao derrotar Gadia, venceu o campeonato brasileiro com 2,5 pontos na frente do vice campeão (o lendário João de Souza Mendes).

43. Idioma materno. Efim Bogoljubow era russo de nascimento. Nos anos 1920s estava seguramente entre os cinco melhores do mundo, como atesta sua esplêndida vitória em Moscou 1925, sobre Lasker, Capablanca, Spielmann e Rubinstein. Casado com uma alemã, Bogoljubow saiu da URSS e foi viver na Alemanha. Anos mais tarde, Botvinnik enfrentou Bogoljubow numa partida de torneio. Num certo momento, Botvinnik comentou algo com seu ex-compatriota. Distraído, Bogoljubow respondeu em alemão ("Was?"), o que mostra que já não mais raciocinava em russo.

44. Colaboracionistas. Quando o nazi-fascismo estendeu suas patas e garras sobre a Europa, inúmeros mestres aceitaram (ou tiveram que aceitar) participar de torneios patrocinados pelos senhores nacional-socialistas: Euwe, Keres, Bogoljubow e Alekhine, por exemplo. Quem foi decente e pôde, tratou de fugir, como por exemplo o alemão Eliskases (que não era judeu). Mais tarde, a maioria desses mestres tentou se justificar alegando que jogavam para garantir a sobreviviência. Alekhine, porém, foi uma exceção. Suas atitudes de simpatia para com os nazistas receberam condenação dos Aliados depois que a guerra terminou. Como jogador, formidável; como ser animal político, execrável.

45. Cavaleiro andante. O mestre do xadrez é um viajante. Desloca-se de um país para outro em busca de torneios internacionais e prêmios. As mudanças de endereço são inevitáveis. Foi o caso de Steinitz, que nasceu em Praga, hoje capital da República Tcheca. De família judaica, seu idioma natal era o alemão. Morou e estudou em Viena, Áustria. Fixou-se na Inglaterra e, finalmente, nos EUA. Emanuel Lasker também foi globetrotter. Nasceu e viveu na Alemanha. Morou na Inglaterra, nos EUA, de novo na Alemanha, fugiu do nazismo e foi para União Soviética, e faleceu nos EUA. Tartakower nasceu e estudou na Rússia, fez a faculdade na Suíça e o doutorado na Áustria, representou a equipe olímpica da Polônia e se tornou cidadão da França. Por causa do nazismo e da II Guerra, muita gente boa se naturalizou argentina: Eliskases (Alemanha) e Najdorf (Polônia), por exemplo. Os jogadores atuais são um pouco mais sossegados. Mas também há os que mudam de país: Hort (da Tchecoeslováquia para a Alemanha), Anand (da Índia para a Espanha). A lista de jogadores soviéticos que saíram da URSS antes ou depois do fim da nação é enorme: Kamsky (EUA), Dorfman (França), Jussupow (Alemanha), Alburt (EUA), Gulko (EUA e depois Israel), Shirov (Espanha), Korchnnoi (Suíça), Krasenkow (Polônia).

46. Sem pressa. Emanuel Lasker visitou o torneio de Karlsbad, que teve um trio de vencedores: Maroczy, Alekhine e Bogoljubow. Nos intervalos, Alekhine e Lasker resolver jogar um pouquinho de xadrez relâmpago, só um pouquinho. O "só um pouquinho" deles durou doze (12) horas seguidas.

47. América. Quem terá sido o maior jogador do continente americano? Temos que decidir entre Capablanca e Fischer. Sem considerar os dois gigantes, quem terá sido o maior jogador dos EUA? Morphy, Pillsbury ou Reshewsky? Os latinoamericanos tiveram grandes jogadores como o mexicano Carlos Torre, os argentinos Panno e Najdorf (polonês naturalizado). Porém, para nós brasileiros, o melhor latinoamericano foi com Henrique C. Mecking. Algum jovem leitor se candidata a ocupar a vaga?

48. Casados x solteiros. Casar é bom para o xadrez? Boa pergunta, talvez tão difícil de responder quanto ter opiniões definitivas sobre todas as linhas da defesa siciliana. Houve grandes jogadores que se casaram, e outros que nunca se casaram (Morphy, C. Torre, Schlechter, Mecking e Fischer). Mas parece que a maioria se casa realmente: Lasker, Rubinstein, Tarrasch, Capablanca, Botvinnik, Bronstein, Petrosian, Spassky, Karpov, Kasparov, Keres, todos se casaram. Os solteirões são minoria mesmo. Mas nem todos ficam casados com a mesma esposa o resto da vida. Tarrasch, Euwe e Botvinnik foram unigâmicos, mas Bronstein, Capablanca, Alekhine, Spassky, Tal e Karpov, por exemplo, se casaram mais de uma vez.

49. Retirada. Xadrez é fascinante, mas desgasta muito e nem sempre livra alguém da miséria. Muito jogador talentoso já abandonou o xadrez. Falta de dinheiro, cansaço ou problema de saúde (física ou mental) foram os principais motivos. No século XIX, o americano Paulo Morphy foi o primeiro caso notável de desistência. Largou o xadrez no apogeu da carreira. O próprio Lasker abandonou o xadrez em 1924 e só voltou a jogar em1934. Fine era candidato ao título mundial mas se retirou em definitivo das competições para se dedicar à profissão de psicanalista. Rubinstein e C. Torre (GM mexicano) tiveram problemas psiquiátricos. O nosso Mecking abandonou o xadrez com apenas 26 anos, pouco depois de ter se colocado em terceiro no ranking mundial. O GM norte-americano Tarjan esqueceu tudo para se tornar bibliotecário, uma profissão com rendas modestas porém garantidas. O talentosíssimo peruano Granda também abandonou o xadrez e voltou para sua terra, para trabalhar como camponês. O jovem russo naturalizado norte-americano Gata Kamsky estava entre os top tem quando deixou os tabuleiros para fazer a faculdade de Medicina. O grande Fischer, talvez o maior dos campeões, largou o xadrez depois de ter conquistado o título mundial. Tinha apenas 28 anos de idade! Ensaiou um retorno vinte anos depois (1992), mas ficou por aí.

50. Duas palavras. Houve uma época em que os dois maiores jogadores de xadrez da Alemanha, S. Tarrasch e Em. Lasker, quase não se falavam. Poucos minutos antes da primeira partida do match pelo campeonato mundial, Tarrasch aproximou-se de Lasker e declarou: "Para Herr Doktor Lasker só tenho duas palavras: xeque e mate." Desgraçadamente, Tarrasch teve poucas oportunidades para utilizar essas palavras pois Lasker venceu o match com folga.

51. Peão avantajado. O GM Bernstein não via Bogoljubow há muitos anos. Quando finalmente o reencontrou, em Amsterdã, percebeu que Bogoljubow tinha engordado bastante. Bernstein não se conteve e exclamou: "Puxa, como você ficou gordo. Está parecendo um verdadeiro peão dobrado!"

52. Exagero. O GM Mikhail Tal viveu às voltas com graves problemas de saúde. Para piorar, não poupava quantidades de cigarro e de álcool. Em 1969 submeteu-se a uma arriscada cirurgia. Logo começaram a correr os boatos de que havia falecido no hospital. Mas Tal continuava vivo e esperto como sempre. Para esclarecer os amigos, anunciou: "As notícias sobre minha morte são um pouco exageradas."

53. Sacrifício. Perguntaram a Botvinnik sobre o que fazer quando um forte grande mestre sacrifica uma peça: tomar ou não tomar? Sua resposta: "Se for Tal quem estiver sacrificado, tome a peça. Se for eu, calcule todas as variantes. Se for Petrosian, recuse." A peça humorística resume o estilo dos três gênios e ex-campeões mundiais: Tal, brilhante jogador de ataque, fazia sacrifícios espetaculares baseados apenas na intuição. Muitos desses sacrifícios eram incorretos mas seus adversários, confundidos pelas complicações, raras vezes encontravam a saída correta. Botvínnik fazia sacrifícios baseados em dados racionais, porém, como ele modestamente admite, era capaz de se equivocar. Petrosian, célebre pela solidez e pelo instinto para reconhecer o perigo, só faria um sacrifício se tivesse absoluta certeza da correção.

54. Lasker e os jogos. Emanuel Lasker apreciava todos os jogos que envolviam algum tipo de raciocínio. Foi um dos maiores especialistas ocidentais em Go, o estratégico jogo japonês. Também era bom jogador de dominó e de gamão. Certa vez inventou um jogo de salão que se tornou muito popular nos lares alemães e austríacos nos anos 1920s. Lasker foi ótimo jogador de bridge (o "xadrez das cartas"), tendo feito parte da equipe olímpica alemã. Além de tudo, claro, foi campeão mundial de xadrez por 27 anos consecutivos, um recorde ainda não igualado.

55. Loucura. Os psicólogos e os médicos psiquiatras já comprovaram que o xadrez não é capaz de ninguém à loucura. Entretanto, pessoas que já tendem a desenvolver problemas mentais podem ter seu quadro agravado por causa do excesso das atividades enxadrísticas. A tensão dos torneios, das disputas e rivalidades é muito estressante. Nem todos reagem da mesmo maneira. O resultado é que muitos jogadores de altíssimo nível tiveram que abandonar o xadrez por problemas psiquiátricos: o norte-americano Paul Morphy, o austríaco Wilhelm Steinitz, o polonês Akiba Rubinstein, o mexicano Carlos Torre, todos grandes mestres.

56. Leningrado. Na Rússia, em novembro de 1917, operários e camponeses dirigidos pelo partido bolchevique derrubaram o governo provisório e iniciaram a construção do primeiro Estado socialista da história. A grande liderança da revolução proletária foi Vladímir I. Lênin, que era um excelente amador (segundo alguns analistas, teria hoje um rating FIDE próximo de 2300). Depois da morte de Lênin, a antiga capital do império russo foi rebatizada com o nome de Leningrado. Hoje, a União Soviética não existe mais. O socialismo foi destroçado. A própria cidade de Leningrado voltou a ser chamada pelo nome antigo, São Petersburgo. Apesar dessas mudanças, o xadrez conservou os nomes antigos. Assim, ainda damos o nome de "Leningrado" para inúmeras linhas de abertura, como na Defesa Nimzoíndia e da Defesa Holandesa, por exemplo.

57. Incompatibilidade. Como se sabe, um bispo que corre nas casas brancas jamais poderá capturar ou ser capturado por um bispo adversário que corre nas casas pretas. Nunca se encostarão. São os bispos de cores opostas. Quando Boris Spassky se divorciou da primeira mulher, explicou os acontecimentos com uma comparação: "Eu e minha ex-esposa éramos como bispos de cores opostas."

58. Ianques. Os Estados Unidos da América (EUA) têm sido um país de extraordinários jogadores de xadrez. O primeiro deles foi Paul Morphy, que em 1857-58 derrotou com facilidade os maiores jogadores europeus. Poderia ter sido considerado o campeão mundial, mas na época não existia esse título. No final do século XIX, destacou-se Nelson Pillsbury, que estava incluído no grupo dos cinco melhores do planeta (depois de Lasker, próximo de Steinitz, Tarrasch, Tchigorin e Maróczy). Depois, foi a vez de F. Marshall, perigosíssimo jogador de ataque, um dos raros mestres que conseguiram vencer Capablanca mais de uma vez. Nos anos 1930s, os EUA eram provavelmente o país mais destacado do xadrez mundial. A equipe norte-americana venceu inúmeras olimpíadas de xadrez. Seus principais jogadores, Reshewsky e R. Fine, eram considerados seriíssimos candidatos ao título mundial e ganharam vários torneios na frente dos mais fortes GMs europeus. Nos anos 1960s, surgiu a estrela brilhante e genial de Robert Fischer, campeão mundial de 1972-1975. Infelizmente, Fischer se retirou precocemente do xadrez. Porém outros jogadores representaram os EUA e alcançaram elevados postos no xadrez mundial: R. Byrne, Christiansen, Seirawan e, recentemente, o russo naturalizado norte-americano Gata Kamsky.

59. Melhore comigo. Por duas décadas, o norte-americano Samuel Reshewsky esteve na lista dos dez melhores do mundo. Com certeza, era o mais forte jogador do planeta fora da URSS. Em partidas individuais, venceu quase todos os campeões mundiais, incluindo Capablanca, Alekhine, Botvinnik, Smyslov e Fischer. Quando um amador perguntava ao grande Reshewsky qual a melhor maneira de progredir, ele sempre respondia: "Estude minhas partidas." E quem se atreveria e dizer que não era um excelente conselho?

60. Soviéticos e russos. A União Soviética (URSS) era um país que agrupava dezenas de povos diferentes, sendo que os russos formavam o contingente mais numeroso. Constitui um grave erro chamar os soviéticos de "russos". O próprio J. Stálin, que governou com mão de ferro a URSS, não era russo, era georgiano. Seu sucessor, Nikita Krutchev, tinha nascido numa aldeia ucraniana. Inúmeros jogadores de xadrez soviéticos também não eram russos. Por exemplo, Keres era estoniano, Petrosian era armênio, Geller, Beliavsky e Ivanchuk nasceram na Ucrânia, Tal era da Letônia, Polugaevsky nasceu na Bielorússia (que é outra república, separada da Rússia), Gelfand também é natural da Bielorússia soviética, Vaganian é armênio, Azmaiparashvili veio da Geórgia, e V. Gravikov nasceu na Lituânia. O próprio Kaspárov nasceu na Adjerbaijão. A rigor, os únicos campeões nascidos na Rússia foram Botvinnik, Spassky, Smyslov, Karpov e Kramnik. Mas se quisermos enriquecer mais ainda nosso caldeirão de povos e culturas, seriam bom acrescentar que os russos Botvinnik, Spassky e Smyslov também descendiam de judeus.

61. Damiano atual. O português Damiano publicou em latim seu Tratado de Xadrez em 1512, logo traduzido para outros idiomas. Durante dois séculos, a obra foi reimpressa várias vezes na Itália, na França e na Inglaterra. Alguns de seus conselhos são completamente atuais: "Não faça nenhum movimento que não tenha um objetivo claro e definido", "Não jogue com pressa", "Quando você tiver encontrado um bom movimento, procure para ver se não encontra um que seja melhor ainda." Alguns manuais chamam a seqüência 1.e4 e5 2.Cf3 f6 de "defesa damiano", o que é uma grande injustiça porque no livro do mestre português está dito explicitamente que a melhor resposta para as pretas é 1...Cc6.

62. Petrosian e a Armênia. O soviético T. Petrosian nasceu e viveu na Armênia, uma das repúblicas que compunham a antiga URSS. Quando esteve em Buenos Aires em 1971, foi recebido com carinho pela comunidade armênia argentina. Alguns duvidaram que ele, cidadão da URSS, que falava perfeitamente o idioma russo (aprendido em todas as escolas do país, como primeira ou segunda língua), pudesse falar em armênio. Mas quando Petrosian discursou com um armênio perfeito, sem sotaques, foi aplaudido com entusiasmo por seus fãs e compatriotas.

63. Jogo de damas. Poucas perguntas podem ser tão irritantes quanto "Você joga xadrez? Então deve jogar damas também." Nada contra o jogo de damas, mas é óbvio que existe uma grande diferença entre os dois esportes, ambos de raciocínio. O xadrez é evidentemente mais complexo. Entretanto, houve alguns fortes jogadores de xadrez que também jogavam damas. Pillsbury, o GM norte-americano foi, abaixo de Lasker, um dos cinco melhores do mundo no final do século XIX (ao lado de Steinitz, Tarrasch, Tchigorin e Maróczy). Esse mesmo Pillsbury destacou-se como um dos dez melhores jogadores de damas dos EUA. O alemão Anderssen, talvez o melhor do mundo por volta de 1865, também foi campeão de damas em seu país. O fortíssimo jogador soviético Nezhmetdinov foi campeão russo de xadrez e de damas!

64. Finais impossíveis. O uso de poderosos computadores na análise de finais com pouquíssimas peças (os dois reis + duas ou três peças/peões) desvendou alguns mistérios e revelou interessantes surpresas. Por exemplo, nas posições normais, rei + dois bispos conseguem dar mate em rei + cavalo (na posição mais complicada, o mate forçado demora 66 lances). Rei + Dama vencem contra Rei + 2 bispos, mas Rei + Dama não conseguem vencer 2 cavalos. Rei + Dama vencem 2 bispos, mas nas posições mais difíceis, são necessários 71 lances para dar mate. O conhecimento desse fato levou ao questionamento da regra do empate depois de 50 lances sem movimento de peão nem captura de peça. Incrível mesmo é o final de Rei + Torre + Bispo contra Rei + 2 cavalos. Note bem, Dama contra dois cavalos dá empate, mas Torre + Bispo (que valem menos do que uma dama) vencem o final contra 2 cavalos! Final dificílimo. Em algumas posições, o mate inevitável acontece depois de 222 lances. Repetimos: R+T+B x R+ C+C pode terminar com mate forçado em 222 lances!

65. Máquinas de guerra. Enxadristas que criaram equipamentos bélicos. Durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), o patriota Emanuel Lasker apresentou projetos de máquinas militares para o Exército alemão. Durante a Segunda Guerra (1939-1945), Alexander Kotov inventou um tipo de morteiro muito útil para o exército soviético na sua luta contra o invasor nazista. Os mesmos nazistas que haviam confiscado os bens de Lasker e o forçaram ao exílio, acusado de "corromper a Alemanha" por ser judeu.

66. Magiares. A Hungria é um país de extraordinários enxadristas. Na passagem do século XIX para o XX destacou-se G. Maróczy, que no auge da carreira estava no mesmo nível de Rubinstein, Tarrasch e Schlechter. No final do século XIX, R. Charousek era uma enorme promessa e venceu grandes torneios, mas faleceu com apenas 27 anos, de tuberculose. Nos anos 1920s, Breyer, que também morreu antes de chegar à velhice, fez parte do grupo "hipermodernista" que inovou a estratégia do xadrez. Nos anos 1950s/1960s, destacou-se L. Szabo, candidato ao título mundial e um dos raros jogadores capaz de fazer partidas equilibradas com os GMs soviéticos. Nos anos 1960s/70/80s, Lajos Portisch tornou-se um dos cinco melhores do mundo, inúmeras vezes candidato ao título mundial. Recentemente, destacou-se a genial Judite Polgar, a primeira mulher a figurar na lista dos dez maiores jogadores do planeta. Outro nome húngaro do xadrez atual é Peter Leko, que no ínício do século XXI

67. Hein?! Samuel Reshewsky tinha 74 anos quando chegou em 2o lugar no Open de Lugano 1985, apenas 1/2 ponto atrás do soviético Tukmakov. Neste torneio, jogaram GMs do nível de J.Nunn, A. Sokolov, Z. Ribli, G. Sosonko, G. Sax, K. Spragett, estrelas dos anos 1980s. Na última rodada, Reshewsky enfrentou o fortíssimo GM inglês N. Short, que naquele mesmo ano tornar-se-ia o primeiro inglês a se classificar para o Torneio de Candidatos, o grupo selecionadíssimo que disputava o direito de desafiar o campeão mundial. Nos melhores anos, Reshewsky havia tomado parte de alguns torneios de candidatos. Os bons tempos tinham passado, mas ele ainda era capaz de reviver algumas da antigas glórias, como fez neste torneio de 1985. Por causa da idade, Reshewsky já não escutava direito. Então, no momento em enfrentava o jovem astro britânico, aconteceu o seguinte diálogo, testemunhado pelo GM J. Nunn: RESHEWSKY: "Você está jogando pela vitória?" SHORT: "Isso é uma proposta de empate?" RESHEWSKY: "Não consigo ouvir o que você diz" SHORT (mais alto): "Você está propondo o empate?" RESHEWSKY: "Isso é uma oferta de empate?" SHORT: "Não!" Reshewsky não ouvia direito, mas continuava enxergando muito bem e conseguiu empatar com Short, que assim perdeu o primeiro lugar no torneio.

68. Café de La Régence. Durante os séculos XVIII e XIX, funcionava, em Paris, o famoso Café de La Régence, o mais conhecido Clube de Xadrez do Mundo. Ele era, para o Xadrez, o que é hoje Wimblendon para o tênis, Maracanã para o futebol, Madison Square Garden para o box e o Scala de Milão para a ópera. As maiores personalidades mundiais do Xadrez, lá se exibiram: Legal, Philidor, Stamma, Lá Bourdonnais, Deschapelles, Saint-Aimant, Kieseritzky e Harwitz. Morphy, lá jogou várias sessões de simultâneas às cegas. Mas vários famosos em outras áreas também lá disputaram suas partidas amistosas: Richelieu, Diderot, Robespierr, Napoleão, Voltaire, J.J. Rousseau e outros...
Mas um dos fatos mais marcantes do famoso Café envolveu dois amadores anônimos cujos nomes foram esquecidos... Dois velhos amigos jogavam, diariamente, suas partidas amistosas no Café. Certa ocasião, por razões desconhecidas, os dois se desentenderam e, embora velhos amigos, depois de áspera discussão, um deles, perdendo a "esportiva", pegou seu próprio Rei e jogou violentamente contra a cabeça do adversário, ferindo-o fazendo sangrar! Depois de socorrido e serenados os ânimos, os freqüentadores resolveram nomear uma comissão de velhos enxadristas para decidir o que fazer, diante de fato tão incompatível com a nobreza do jogo de Xadrez. Após horas de deliberações, o Júri deu a sentença: "Para uma falta inusitada e não prevista nos Regulamentos do Xadrez, uma pena também inusitada: o agressor fica proibido de rocar durante um ano!".