Entrevista    

 Realizada em: 27.03.2006

Ruy Carvalho Gonçalves é associado do CXV número 250, com 226 partidas disputadas pelo nosso Clube, das quais, 71 vitórias, ele ocupa atualmente a posição de número 161 de nosso ranking.

Conheça um pouco de nosso associado nessa entrevista que ele nos concedeu.


CXV: Ruy, por favor, apresente-se a nós:

RUY:
Sou Coronel da Reserva do Exército onde servi em várias unidades e terminei como Professor de Matemática no Colégio Militar de Porto Alegre e no de Curitiba. Tenho 82 anos de idade (farei 83 dia 13 de abril) e resido em minha cidade natal, Porto Alegre.

CXV: Como aprendeu a jogar xadrez?

RUY:
Como a maioria dos enxadristas, aprendi com meu pai, aos 10 anos de idade. Tenho, pois, mais de 70 anos de xadrez e ainda estou na categoria pereba! Meu primeiro livro de xadrez foi Xadrez Elementar, de Eurico Penteado.

CXV: Conte-nos suas experiências no xadrez “ao vivo”.

RUY:
Em 1936, então no 1° ano ginasial do Colégio Militar de Porto Alegre e com 13 anos, disputei meu primeiro Torneio, obtendo um discretíssimo 9° lugar, entre 10 concorrentes...

Mas logo melhorei e comecei a me interessar por problemas e finais, coisa que até hoje pratico.

Em 1944, já na Escola Militar de Realengo, fui campeão da Escola, pela equipe da Artilharia.

No ano seguinte, na Academia Militar das Agulhas Negras joguei minha primeira simultânea contra um Mestre russo (não lembro o nome) sendo derrotado após muita luta!

CXV: Algo que lhe chamou a atenção no xadrez “ao vivo”.

RUY:
Em 1947 assisti, em São Paulo, a um espetáculo inesquecível: as 45 simultâneas de Miguel Najdorf, às cegas! Não acreditava no que via...

CXV: Vantagem principal no jogo de xadrez.

Vejo no Xadrez grandes vantagens: desenvolvimento do raciocínio, do gosto pelo esforço concentrado, da responsabilidade e do espírito de luta.

CXV: Conte-nos de você no xadrez postal.

RUY:
Desde muito moço me interessei pelo Xadrez Postal. Minha primeira partida foi contra um argentino que me derrotou: José Derqui Cullaciatti. Nunca esqueci seu nome! Depois ingressei no CXEB que só deixei quando conheci o CXV. Interessante é que não tenho a menor idéia de como descobri o CXV! Lembro que meu Tutorial foi com o Izaias.

No Xadrez Postal tive parceiros interessantes: um Coronel Reformado do Exército Português que residia em Angola e que morreu antes de terminar a partida, um Sargento Francês do 17° Regimento de Infantaria Colonial que lutava na Indochina e um americano que cumpria pena num presídio nas Filipinas e que fugiu da prisão! Recebi uma carta do Diretor do presídio informando de sua fuga... O cara gostava de Xadrez, mas não do xadrez!




O entrevistado Ruy Carvalho Gonçalves.


CXV: Algum hobby ou atividade “extra-xadrez”?

RUY:
Sou colecionador de curiosidades, piadas, problemas escalafobéticos e histórias sobre o Xadrez e que motivaram o En Passant .

Na década de 70 publiquei, no Correio do Povo de Porto Alegre, uma coluna dominical de Xadrez, tipo En Passant , durante uns 3 anos, sob o pseudônimo de Capaverde, como alguns colegas do Exército me chamavam, juntando Capablanca com o Verde-Oliva...

CXV: Alguma modalidade diferente além do postal ou “ao vivo”?

RUY:
Também já joguei mais de 600 partidas por telefone! Todas com parceiros locais... Tentei fundar um Clube de Xadrez por Telefone, mas não consegui.

CXV: Ainda disputa partidas “ao vivo”?

RUY:
Atualmente, com problemas de visão (glaucoma e catarata) só jogo no CXV, nem indo mais ao Clube Metrópole, de Porto Alegre.

CXV: Costuma jogar xadrez além do postal?

RUY:
Abandonei o Xadrez Postal, depois que descobri o CXV. Mas joguei umas 600 ou 700 partidas por telefone com cinco ou seis parceiros locais. Com um deles, Hjeron Michalk, meu vizinho que residia a quatro quadras de minha residência, joguei mais de 500. Só paramos quando ele faleceu. Jogávamos simultaneamente quatro partidas. Quando um acabava, iniciávamos outra...

Deixei de freqüentar o Metrópole Xadrez Club de Porto Alegre, devido à idade e à dificuldade de visão. Sou cego do olho direito e tenho catarata no esquerdo e, para mim, é perigoso andar na rua. Mas foi operada e agora está bem.

CXV: Como conheceu o CXV?

RUY:
Por incrível que pareça, não lembro detalhes sobre como descobri o CXV...

Mas lembro que troquei meus primeiros e-mails com o João Neumann que me iniciou no CXV, me emparceirando num Tutorial com o Izaias.

E há cerca de seis anos estou envolvido no CXV, disputando e perdendo partidas e sempre com modestas participações em Torneios...

CXV: Qual sua motivação em participar do CXV? Aprender, praticar ou competir?

RUY:
Para ser franco, são as três motivações indicadas... Tenho aprendido muito, tenho uma boa quantidade de partidas jogadas e tenho competido em dezenas de Torneios. Jamais estive desativado! Só paro de jogar durante o mês de fevereiro, quando vou à praia, longe de Porto Alegre. Aliás, no CXV é só onde tenho jogado, pois por motivos de saúde me é muito difícil ir ao Clube de Xadrez e voltar à noite, pois tenho problemas de visão, além dos quase 82 invernos no lombo...

Outra motivação (não lembrada na pergunta) é divulgar o Xadrez por meio de problemas, finais, curiosidades, problemas escalafobéticas e piadas...

CXV: Qual o melhor enxadrista de todos os tempos na sua opinião?

RUY:
É difícil responder. Entre os dois que considero os melhores, Capablanca e Alekhine, fico com Alekhine. Perguntado por um jornalista sobre o que achava do estilo de jogo desses dois monstros sagrados do Xadrez, o então campeão mundial Max Euwe respondeu: "O jogo de Capablanca pode ser comparado com o mais fino champanhe francês servido em uma taça do mais fino cristal. O de Alekhine pode ser comparado com o mesmo champanhe e a mesma taça, mas com uma gotinha do mais mortífero veneno..."

CXV: Os Grandes Mestres admitem que analisam posições/partidas antigas com a ajuda de seu computador. O que você acha do uso de computadores na prática do xadrez?

RUY:
Para analisar velhas partidas, aceito. Mas sou totalmente contra seu uso para analisar partidas por correspondência ou e-mail, em andamento. Acho até que o computador é uma séria ameaça para o Xadrez postal ou virtual. Acho uma vergonha disputar um Torneio por e-mail ou postal, deixando ao computador a tarefa de analisar e decidir qual a resposta ao adversário.

CXV: O que você acha que poderia ser acrescentado ou melhorado no CXV?

RUY:
Tenho duas sugestões que, aliás, já apresentei, mas que não prosperaram. Repito para que sejam ponderadas mais uma vez:

a ) Passar os Torneios Relâmpagos de sete para quatro concorrentes, cada um deles jogando duas partidas (brancas e pretas) para cada um dos outros três, no mesmo total de seis partidas. Com isto seria mais rápida a formação dos Grupos e não haveria a necessidade de emparceiramento com especificação das cores. Bastaria cada um enviar aos demais o lance inicial com as brancas.

b ) Instituição das Partidas Amistosas, sem o rigor do controle de TR e sem validade para o ELO. Por experiência própria sei que o problema que pode ocorrer é a demora nas respostas, aliás, de difícil solução. Esse tipo de partidas serviria bem aos que tem pouco tempo e que não desejam muitos adversários. Talvez a solução para a demora nas respostas fosse valer o TR como nos Torneios e o ELO.

CXV: Por que o xadrez por e-mail? Já tinha jogado em outros clubes de xadrez por correspondência?

RUY: Já joguei muito por correspondência e por telefone, como já disse antes. Mas migrei para o e-mail por dois motivos: rapidez e não ter que ir até o Correio para postar a carta... Sem contar que é mais barato!

Mas por telefone ainda estou jogando duas partidas. Duram de dois a três meses. Mas só podem ser jogadas entre dois adversários da mesma cidade por motivos econômicos! Um detalhe curioso: por telefone deve se ter muito cuidado com a notação, pois é freqüente a confusão de b, c, d... Usamos o alfabeto fonético e4 = Equador 4, Cf6 = Cavalo França meia dúzia. Também é freqüente a confusão de 3 e 6. Usamos três e meia dúzia... Como curiosidade, tive um parceiro médico que adotava um alfabeto fonético em termos assustadores: em lugar de a, b, c, etc., usava Aids, Bronquite, Câncer, Diarréia, Encefalite, Fimose, Gonorréia e Hipertensão...

CXV: Fale um pouco como você faz para analisar os lances das partidas por e-mail. Qual ferramenta (aplicativos) utiliza?

RUY:
Normalmente no diagrama que o ECTool apresenta na tela do monitor. Só quando a posição é muito complicada e difícil, armo o tabuleiro. Mas já me arrependi de analisar no diagrama... Já fiz besteiras monumentais por preguiça de arrumar as peças no tabuleiro...

CXV: Além do xadrez por e-mail, você joga xadrez on-table (no tabuleiro) ou em servidores de xadrez ao vivo da Internet?

RUY:
Atualmente, só jogo no CXV. Na praia, às vezes, jogo com um vizinho ou com uns garotos que ensinei a jogar, mas apenas com o objetivo didático, pois são muito fracos...

CXV: Como enfrentar a prepotência dos enxadristas que se julgam os Reis da Cocada Preta ?

RUY: Felizmente são poucos os Reis da Cocada Preta! Mas acho que devemos tolerar sua empáfia e tratar de derrotá-lo sempre que possível!

Lembro que num Torneio Relâmpago no Clube de Xadrez do Rio de Janeiro, vencí ( por muita sorte, é verdade) o lider do Torneio e que acabou vencendo, só perdendo para mim, que fiquei num dos últimos lugares...

Espantado e irritado ele me perguntou a que eu atribuia minhja "imerecida" vitória... Respondí que vencí porque ele jogara mal contra mim! Diga-se, en passant, que o cara era mesmo o Rei da Cocada Preta, conhecido por todos no Clube...

Sobre este assunto há uma história interessante. Carlos Torre, genial mestre mexicano, perguntado certa vez sobre qual a mais brilhante partida de xadrez de sua vida, respondeu: "A que perdí para Adams que sacrificou sua Dama várias vezes e me venceu com uma combinaçã o espetacular"

Diga-se de passagem que Adams era um modesto amador e que teve a felicidade de bater um Grande Mestre de forma brilhante!

CXV: Dizem que a prática do xadrez ajuda a melhorar a concentração e o raciocínio no dia a dia. Você diria que o xadrez te ajuda nesses itens?

RUY:
Sempre fui um admirador das ciências exatas, tanto que quando tive tempo fiz o Curso de Matemática na PUC do Rio Grande do Sul, acabando minha vida militar como professor de Matemática no Magistério Militar. Para mim, o Xadrez tem, como grande vantagem, desenvolver o raciocínio lógico, a imaginação, a capacidade de se manter durante muito tempo um esforço mental concentrado, o espírito de luta e, principalmente, o senso de responsabilidade. Quando perdemos uma partida, não podemos culpar ninguém mais que nós mesmos... Somos os únicos responsáveis pelas decisões quer tomamos.

CXV: Qual a tua sugestão para que o xadrez seja difundido no país para que pudesse chegar ao mesmo patamar cultural que o futebol?

RUY:
A implantação do Xadrez como atividade extracurricular em todas as Escolas. Sempre que possível, nas Escolas em que trabalhei (militares e civis), organizei Cursos de Xadrez, Torneios, simultâneas e palestras sobre nosso Jogo.

Na velha URSS havia os Clubes de Pioneiros onde milhares de jovens estudantes russos aprenderam Xadrez, produzindo aquela fabulosa potência enxadrística que até hoje domina o Mundo do Tabuleiro. As colunas dominicais de Xadrez, nos principais jornais também seriam de grande sucesso na divulgação do Xadrez, bem como as sessões públicas de simultâneas por Grandes Mestres e Mestres Internacionais.

CXV: Para finalizar, dê uma palavrinha ao pessoal que está iniciando no xadrez.

RUY: Aos iniciantes na prática do enxadrismo, meus parabéns! Não há passatempo mais apaixonante e inteligente que o Xadrez! Estudem, joguem, resolvam problemas, reproduzam partidas dos Grandes Mestres, joguem por correspondência ou por e-mail!

Há uma frase de Collier que sempre cito: "Xadrez! Que maneira maravilhosa de se perder tempo!"

Permita-me terminar com uma trova de minha autoria, baseada numa citação famosa:

Xadrez? É tão demorado
e a vida tão reduzida...
Mas não é ele o culpado!
A culpa toda é da vida!

Ruy Carvalho Gonçalves


 

Colaboração: Antônio Cordeiro Filho, Dogeval Ferreira Holanda, Luiz Henrique Silva e Ubirajara do Nasc. Rodrigues.